Geração da Cultura

A revista Cultura - que deu, obviamente, suporte à geração com o mesmo nome - teve durante a sua vida duas fases literárias: Cultura I - "mensário de divulgação literária, científica e artística da sociedade cultural de Angola", que apareceu em Angola em 1957, e "Cultura II", que vai de 1957 a 1961 - data em que rebenta a luta armada em Angola.
Com o aparecimento de Cultura I dá-se uma grande mudança na forma de fazer literatura de e para Angola.
Cultura II - propriedade e edição da Sociedade Cultural de Angola e com João Benard da Costa Pereira como Diretor - publica quinze números entre 1957 e 1961. Esta revista marca, indubitavelmente, o início de uma crítica literária desejosa de uma definição de angolanidade. Os homens desta "nova" geração prolongam, definitivamente, as linhas iniciadas pela Geração da Mensagem: solidificam-se determinadas posições político-sociais; começa o ataque cerrado para o fim do tempo da voz abafada, da escrita da dissimulação e engano; surge, veementemente, o tom acusatório.
A grande diferença entre as linhas temáticas da Geração da Mensagem e as da Geração da Cultura revela-se através do estilo escolhido para melhor fazer passar as suas ideias: Mensagem privilegiava a poesia, Cultura dá especial preferência à narrativa.
Os homens desta geração pretendem, assim, abarcar toda a vida cultural angolana nos seus diferentes aspetos. Para servir estes intuitos de clareza, ou melhor, classificação da realidade angolana parece mais adequada a narrativa.
A poesia da Cultura tem como denominador comum a identidade angolana, ou, pelo menos, a procura dessa identidade. Grande parte dela é verdadeiramente nacionalista, com alguns (breves) rasgos de protesto social e anti-colonialista. Os critérios artísticos, não muito rigorosos, refletiam o desejo, por parte dos editores, de dinamizar uma angolanidade politicamente motivada a esmagar o domínio da cultura importada, não angolana. A grande aposta estaria virada para a reabilitação da tradição oral africana incorporada na sua poesia em língua portuguesa. A necessidade de reivindicar valores até então negados via na poesia, pela sua capacidade de emoção, o meio ideal para invocar, evocar, exaltar e reclamar a terra natal, a terra-mãe, enfim, a mãe-África. Temas como a evocação da infância e do passado crioulo, as lamentações pelo desenraizamento, a solidariedade, as memórias ancestrais eram os mais comuns, e, a par com a documentação sofrida das transformações da cena urbana, ambicionam despertar a consciência coletiva dos filhos de Angola. A maioria destes poetas sentia profundamente o problema da obrigatoriedade da utilização da língua portuguesa (veículo de expressão daqueles que pretendiam acusar), mas vários deles tentaram dar autenticidade angolana à sua arte mediante a utilização de palavras e frases africanas ou, mesmo, através da criação de um português crioulizado.
É um facto que a poesia atingia a consciência mais profunda do homem angolano, tocando o sensível tema do amor à terra. Mas a luta desta geração não se podia cingir a este alerta. Havia que partir para a denúncia aberta de assuntos gerais, de realidades gerais, entrando em força com a narrativa privilegiando o urbanismo, a vida nos musseques que são, exatamente, a característica de um espaço autenticamente africano dentro de um território urbano. As suas principais pretensões de denúncia baseavam-se nestes ambientes para que fosse demonstrada a cabal diferença entre o musseque - espaço do africano - e o mundo do asfalto - espaço do branco, do outro. Assim, a narrativa da Cultura surge sob o signo do separatismo, social e linguístico. Esta narrativa tomou formas várias, que passavam desde a refundição dos contos africanos tradicionais até ao género da crónica e retratos realistas da vida urbana. Nestes "contistas da cultura" reside uma linha geral de equacionação do problema do desenvolvimento social e urbano em Angola, nas principais cidades, especialmente Luanda. Todo este grupo de contistas procurava, antes de mais, o rumo à descoberta dos valores tradicionais próprios e a pura mentalidade do africano. É de notar que a maioria dos contistas vive em cidades, principalmente em Luanda, pelo que são "forçados" a escrever sobre a problemática criada nestas cidades: desemprego, prostituição, fome, miúdos abandonados a si próprios, saudades dos tempos passados, amor, etc. Já não encontramos o contador de histórias fazendo viver velhas lendas em noites de luar, mas um vasto conto realista, fortemente enraizado na sociedade atual.
Esta geração deu, sem margem para dúvidas, um dos maiores passos para a concretização do sonho tão desejado de re-edificar Angola e devolvê-la aos seus filhos.
Como referenciar: Geração da Cultura in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-12-06 11:28:50]. Disponível na Internet: