Gregório de Matos

No século XVII, o Brasil estava já totalmente explorado pelos portugueses. A abundância de minérios preciosos e as cores exuberantes da Natureza do novo mundo levaram o povo luso a colonizar a nova terra, inseri-la nos seus padrões e impor a sua identidade, negando as culturas já aí existentes. Chegados como meros aventureiros, os fidalgos portugueses acabaram por cobrar altos impostos, que desagradavam a alguns espíritos mais avisados. Neste contexto se destaca a figura de Gregório de Matos, o Boca do Inferno, que através da sua poesia alertava contra estes representantes da coroa portuguesa.
Filho de reinol e baiana, entrou para o Colégio dos Jesuítas da Baía com 14 anos e, revelando sucesso nos estudos, viajou para Coimbra onde se doutorou em Direito. Após trinta anos de permanência na metrópole, onde desempenhou funções na magistratura, regressou ao Brasil em 1678, aventurando-se nas lides literárias que, pelo seu carácter satírico, não lhe deram tranquilidade. Destituído das funções eclesiásticas em que, como minorista, fora investido, sofreu desterro em Angola, pelo seu pendor crítico e pela sua conduta desregrada.Novamente na Baía, após o cumprimento da pena, já aos 47 anos, o poeta adquiriu o relevo que lhe é atualmente atribuído como pioneiro da sátira da cultura brasileira. Os seus poemas desvelavam a sua época pela arma do riso, por vocábulos profanos, por uma linguagem carnavalesca. Nos rebaixamentos paródicos, nas injúrias e nos louvores irónicos, a linguagem de praça pública ridicularizava o sistema, desmascarando os poderes vigentes. Instaurou um programa demolidor, que se baseava na denúncia de verdades em tom rebaixador e cómico:Retrato do GovernadorAntónio Luís da Câmara CoutinhoVá de retratoPor consoantes,Que eu sou TimatesDe um nariz de Tucano,Pés de patoOs pés são figasO mor grandezaPor cuja empresaTomaram tantos pés,Tantas cantigas.Você perdoeNariz nefando,Que eu vou cortandoE ainda fica narizQue se assoe.Neste poema, atacava grotescamente o governador dentro de um plano material. Todavia, Matos não destronava apenas o poder, uma vez que aplicava o mesmo sarcasmo ao amor, que dessacralizava no rebaixamento ao plano material e corporal do sexo.
A linguagem satírica que Matos inventou desmascarava e reinterpretava também o sagrado sobre o plano material e corporal, revestindo-se não só de gravidade humana, como de unção religiosa.Aliado às tendências da época, o Boca do Inferno escreveu grande parte das suas poesias ao estilo da Fénix Renascida, trabalhando os jogos de palavras, de imagens e de conceitos. Leitor de Camões, alguns dos seus temas, como o da mudança e da instabilidade universal, são por ele tratados com grande sobriedade. Exibiu ainda composições em que se revelou um fiel discípulo da filosofia escolástica dos colégios jesuíticos, sendo, por conseguinte, merecedor dos créditos mais prezados no tempo.
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