Guerra Civil na Colômbia

Apesar de todas as denominações possíveis, a realidade geopolítica atual da Colômbia configura uma situação de conflito e tensão armadas, com milhares de mortos e feridos, fações e lealdades regionais e populares, divisão e situação política instável, com as consequências económicas, sociais e internacionais que decorrem de um quadro nacional como o deste país da América do Sul, terra de excelente café e soberbas esmeraldas, de belas montanhas e infindáveis florestas, com um legado hispano-americano notável, mas um futuro incerto.
A incerteza do futuro mergulha nas divisões e guerras civis do século XIX, a seguir à independência do país, em 1819. Depois do aparecimento dos partidos políticos, em meados da centúria, formaram-se as tendências e entre 1899 e 1903, deflagrou a Guerra dos Mil Dias, a que se sucedeu uma paz de cerca de meio século, apesar de confrontos políticos um pouco por todo o país.
Em 1948 rebentou o Bogotazo, com levantamentos populares em todo o país na sequência do assassinato do líder político liberal Jorge Gaitán, em Bogotá, a capital nacional. Os Liberais e Conservadores disputavam há muito o poder, com violência partidária. Depois da vitória conservadora em 1950, com Laureano Gómez à frente do governo, muito militarizado, os Liberais promoveram lutas de guerrilha no país, principalmente na parte oriental, amazónica. Além desses movimentos, outros surgiram, apoiantes do governo mas também do Partido Comunista, até que o general Rojas Pinilla assumiu o poder em 1953, num golpe militar. Apesar de uma certa amnistia e concertação do governo com as guerrilhas, pelo meio, alguns líderes foram assassinados, além de se ter gerado um clima de medo e desconfiança política entre os grupos contestatários. Alguns nódulos guerrilheiros também se mantiveram na clandestinidade e formaram quistos revolucionários, onde se assumiam como lei e onde o Estado não intervinha. No fundo, criavam-se as bases de futuros movimentos de luta armada contra o poder central. Assaltos, ataques, expropriações, ameaças, impostos revolucionários começaram a ser cobrados nessas regiões. Em 1957, depois de contestação popular e laboral, Pinilla foi apeado do poder e criou-se uma junta militar de transição para a democracia. Em 1958 inaugurou-se um governo de Frente Nacional, por acordo entre os partidos Liberal e Conservador, que se alternariam no poder de quatro em quatro anos ao longo de 16 anos, para tentar apaziguar as suas divisões políticas e criar um clima de paz no país, necessário ao seu desenvolvimento. Todavia bipolarizou a cena político-governativa colombiana, afastando outros partidos da luta pelo poder.
Além disso, os nichos territoriais ("repúblicas") revolucionários no país não desapareceram, pelo que o exército começou a tentar acabar com os mesmos e impor a autoridade central de Bogotá. Uma dessas "repúblicas", em Marquetalaia resistiu, às ordens de Pedro Marín (ou Manuel Larulanda), num cocktail liberal e comunista de 20 a 80 milicianos armados, que conseguiram fugir às autoridades. Com a simpatia e apoio de estudantes universitários, nasceram, a partir dessa bolsa de resistência, as Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colômbia (FARC), organizadas pelos comunistas colombianos. Depois das eleições de 19 de abril de 1970, com a vitória do conservador Pastrana, candidato oficial da Frente Nacional, contra o conservador independente Rojas Pinilla, surgem acusações da parte deste de vitória fraudulenta do seu adversário. Pastrana, todavia, criou uma vaga de fundo popular, através dos estudantes universitários e do movimento então criado, Movimiento 19 de Abril M-19. Em 1974 reaparece em cena um grupo antigo mas adormecido em termos revolucionários, o Ejercito de Libertación Nacional, ELN, que se envolveu então em novo processo de luta armada, a par dos anteriormente citados e do EPL, Ejercito Popular de Libertación, além do Movimiento Armado Quintin Lame, entre outros movimentos menores, todos animados por uma ideologia marxista ou nacionalista. 1978-82 foi um período marcado pela luta do poder central, à frente do qual estava Turbay Ayala, contra a insegurança e as guerrilhas na Colômbia, atingindo-se um ponto alto em 1980, com a tomada, sem sucesso, da embaixada da Rep. Dominicana pelo M-19, com os seus efetivos a fugirem depois para Cuba. Belisario Betancur, que governou a Colômbia no quadriénio seguinte, também não conheceu tempos de paz, com o regresso do M-19 em força em 1985, quando atacaram o Palácio da Justiça em Bogotá, com muita violência e mortes entre os reféns. Mais tarde, no governo seguinte, de Virgílio Barco ((1986-90), o M-19 desmobilizou-se, em 1989, perante o reforço da autoridade do governo. Também o ELN (fação apenas) e o EPL se desmobilizariam no governo seguinte, a cargo de César Gaviria (1990-94). Mas ficaram as FARC, mais poderosas militarmente, com o seu grupo político satélite Unión Patriótica, que cedo foi alvo de "ações punitivas" do poder e talvez das próprias FARC, com o assassinato de muitos dos seus líderes.
Na Colômbia existiu sempre um poder invisível mas muito forte, o dos narcotraficantes, de cocaína (os cocaleros), financiadores, porque principais interessados, da divisão política e da luta armada no país. Muito fortes nas décadas de 80 e 90, uniram-se, em 1997, para criar as Autodefensas Unidas de Colombia (AUC). As FARC são, desde então, o mais firme e ativo movimento de luta armada na Colômbia, com milhares de efetivos militares e capacidade bélica assinalável, conseguindo vitórias e episódios de grande repercussão internacional. Andrés Pastrana, presidente entre 1998 e 2003, encetou negociações e sugeriu a criação de uma zona de negociação desmilitarizada na Colômbia, além de um processo negocial que não tem parado até hoje, embora com muitas interrupções, dada a política de sequestros de políticos e estrangeiros pelas FARC, além da guerrilha cada vez mais mortífera e em expansão. As FARC, por exemplo, não respeitaram essa zona desmilitarizada, de trégua, criaram bolsas de resistência e ações cada vez mais eficazes, além de terem o apoio do narcotráfico colombiano e perpetrarem mais e mais sequestros estratégicos. Daí a eleição de Álvaro Uribe, um “duro”, para presidente da Colômbia, um dos países mais inseguros do século XXI. A luta continua, dir-se-ia, e as FARC não desarmam assim como o governo, com negociações intermináveis e impossíveis, com uma paz que não aparece.
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