Guerra das ""Germânias""

As primeiras décadas do século XVI são marcadas na Alemanha pela contestação de Martinho Lutero, monge agostinho, às orientações da Igreja de Roma. Em 1520 Lutero publicou três manifestos onde expunha as suas convicções acerca da liberdade de consciência do cristão. Esta divergência com o papado vai custar-lhe a excomunhão e vai dar-lhe uma nova oportunidade para demonstrar o seu desagrado: no dia 30 de dezembro daquele ano Lutero queima a bula de excomunhão (Exsurge domine) ao lado das Decretais diante da porta do Elster em Wittenberg. Carlos V, entretanto coroado Imperador em Aix e financiado pelas casas Fugger e Welser, veio assistir à Dieta de Worms e convocou o monge rebelde para aí se defender. Diante dos príncipes, do alto clero, dos cavaleiros e dos burgueses, Lutero reafirma todos os princípios por que vinha lutando: recusa a revogação, recusa a obediência e, com isso, começa a ganhar apoios entre os alemães. A decisão de Carlos V não surpreendeu: Lutero é banido do Império mas o seu protetor, Frederico, o Sensato, eleitor da Saxónia (Saxe), trata de o colocar a salvo, disfarçado de Junker Jorg, no seu castelo de Wartburg. Passará os próximos anos a trabalhar, nomeadamente na tradução da Bíblia para o alemão.
Enquanto Lutero se retirava para o sossego de Wartburg, as suas ideias espalhavam-se rapidamente, provocando, em muitos casos, reações extremas que conduziram a Alemanha a um período de confrontos por vezes extremamente violentos. A enorme agitação revela ódios contra o clero. Monges fogem dos conventos; eclesiásticos abandonam os votos. Populares saqueiam as relíquias, imagens, altares, paramentos. Emergem figuras exacerbadas como Karlstadt que estende o cálice aos fiéis e protesta contra o fausto das tradicionais cerimónias; suprime a missa e as imagens. Em 1523, ao apelo de Franz von Sickingen e de Ulrich de Hutten, os cavaleiros da Suábia e da Francónia atacaram os principados (particularmente os eclesiásticos) e dividiram as suas terras entre os camponeses que chamaram à revolta contra Roma e contra os homens de negócio. Acabaram por suscitar e ser vencidos por uma grande aliança de príncipes, bispos e patriciado urbano. Entretanto, as comunidades rurais, encorajadas por Thomas Münzer, sublevaram-se por sua vez, originando a célebre Guerra dos Camponeses (1524-1525), apoiada pelo proletariado urbano. Mas o caso era demasiado perigoso e incontrolável; por isso, católicos e luteranos uniram-se a fim de lhe pôr cobro.
As consequências destas guerras foram consideráveis. A base social do luteranismo encolheu-se; o medo levou muitos a abandonar Lutero e a reaproximar-se de Roma, enquanto outros levaram o reformador a conceder às igrejas reformadas uma constituição hierarquizada, o que provocou o afastamento do ativo movimento dos sacramentários, nascido nas cidades mercantis da Suíça.
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