heliocentrismo

O Sol é objeto de culto e adoração desde as civilizações mais antigas (com destaque para o Egito, onde assumia a divindade de ), entendido em muitas delas como algo que morria todas as noites e renascia na manhã seguinte. Este fascínio pelo astro-rei persiste mesmo nas civilizações mais avançadas. Na Grécia Clássica, aparecem as primeiras referências a conceções cosmológicas que vão no sentido da teoria mais tarde formulada categoricamente por Copérnico. Philolau, filósofo do século V a. C., e talvez Hicetas de Siracusa, um século depois, supuseram que a Terra era uma esfera girando diariamente à volta de um "fogo central" - o Sol. A primeira proposição concreta sobre a centralidade solar é de Aristarco de Samos, no século III a. C. Todavia, estas ideias, a par da conceção dos Pitagóricos acerca da esfericidade da Terra e da sua rotação em torno de si própria, não vingaram, sendo completamente esquecidas pelo triunfo do geocentrismo de Cláudio Ptolomeu de Alexandria, do século II d. C., que, influenciado pelo aristotelismo, concebe no Almagesto a teoria da imobilidade da Terra, rodeada de esferas transparentes girando à sua volta, como o Sol e outros planetas.
Esta teoria será aceite e interiorizada como intangível pela Cristandade medieval, enquadrada na filosofia escolástica, defendida por S. Tomás de Aquino no século XIII, que adaptou o geocentrismo às conceções doutrinais do Cristianismo. Em linhas gerais, a Idade Média concebia o Universo como um conjunto de esferas em movimento, em cujo centro estava a Terra, imóvel. Concebia-se, pois, o Universo fechado, finito, com a Humanidade pecadora num lugar entre Deus, no alto, e os demónios, mais abaixo. Profundamente arreigado na consciência coletiva do povo cristão, o geocentrismo dominará as mentalidades, em termos cosmológicos, até ao século XVI. Antes, porém, no século XV, Nicolau de Cusa defende uma conceção diferente, avançando com a possibilidade do movimento da Terra e a ideia de um Universo infinito ou indefinido. Esta teoria não influenciará o mundo científico do tempo, já que os grandes astrónomos, como Johannes Muller (Regiomontanus) ou J. Beurbach, se manterão fiéis a Ptolomeu. Apenas no século XVI as teses de Cusa ressurgirão, ainda que o primeiro grande seguidor, Giordano Bruno, tenha acabado na fogueira inquisitorial.
É neste contexto que aparece a teoria de Copérnico, que consiste na afirmação de que o Sol ocupa o centro do Universo; que a Lua gira em redor da Terra; que esta, tal como os outros planetas, descreve movimentos em torno do Sol; que os astros descrevem órbitas circulares e exercem atração recíproca. Ao mesmo tempo defende que a Terra gira em torno de si própria, em ciclos com a duração de 24 horas. Ainda que boa parte do mundo científico assimile e aceite esta teoria, muitos são os que a rejeitam ou dela desconfiam, nomeadamente os humanistas que a acusam de retirar ao Homem a centralidade universal. A Igreja, num momento de divisão provocado pela Reforma e às portas do Concílio de Trento, rejeita - com uma veemência inusitada - a teoria heliocêntrica, que considera secundarizadora de Deus, para além de racional, empírica e contrária às Escrituras (pelas quais Deus criou tudo à sua imagem, inclusive o céu e a Terra, o Sol e os planetas, a Ele subordinados).
Nos séculos XVI e XVII, os astrónomos aceitam cada vez mais a teoria de Copérnico, deixando de a considerar como mera hipótese. Tycho Brahe, aproveitando a conceção copernicana, dá um carácter sistemático à Astronomia, abrindo caminho, com suas observações, ao trabalho de Kepler, que em 1609 demonstra cientificamente a validade da teoria heliocentrista. Galileu, com suas observações e cálculos astronómicos (inventa o "telescópio"), enriquece ainda mais a teoria de Copérnico.
Desde o astrónomo polaco e principalmente com os seus seguidores, entre os quais Newton, a ciência - no caso, a Astronomia e a teoria heliocentrista - autonomiza-se e desliga-se da Filosofia, ainda amplamente ligada, por seu lado, à religião. O heliocentrismo concebe, pois, o Universo independente de Deus, como um sistema autónomo, explicando-se por si próprio e através de leis testadas pela experiência e formuladas matematicamente, deslocando-se o centro de gravitação da Terra para o Sol.
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