heteronímia

Heteronímia (do grego heteros = diferente; + ónoma = nome) designa o fenómeno da utilização de diferentes nomes que correspondem a personalidades diferentes, com biografia e estilo próprios, com uma visão de mundo específica, num processo de fragmentação psicológica. Enquanto o pseudónimo é um nome falso (pseudo = falso + ónoma = nome) que esconde o nome e a personalidade do seu autor, o heterónimo implica uma personalidade particular, com uma biografia própria e uma visão específica do mundo.
A marca mais distintiva de Fernando Pessoa é a capacidade de «outrar-se», a criação da heteronímia. Este fenómeno resulta, segundo o mesmo afirma, em carta a Adolfo Casais Monteiro, da necessidade de descobrir a sua consciência e personalidade. E vai levá-lo à conceção de figuras "exatamente humanas" que "eram gente". Nessa carta de 1935, diz ele: "hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha." Trata se, contudo, simplesmente do "temperamento dramático elevado ao máximo"; escrevendo, em vez de dramas em atos e ação, "dramas em alma".
Nesta perspetiva dele mesmo, dir se á que a "pequena humanidade" do poeta é como um palco onde desfilam diversas personagens diferentes. Num dos seus inéditos publicados pelos críticos, diz Pessoa que "o autor destas linhas [...] nunca teve uma só personalidade, nem pensou nunca, nem sentiu, senão dramaticamente, isto é, numa pessoa, a personalidade, suposta, que mais propriamente do que ele próprio pudesse ter esses sentimentos" e, num outro, "quando falo com sinceridade, não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe". Desde criança, Fernando Pessoa, particularmente após a morte do irmão, mostra-se reservado e solitário, o que o leva à criação de diversos amigos imaginários "exatamente humanos". O primeiro surge aos seis anos, é francês e chama-se Chevalier de Pas; quando entra no liceu Durban High School, em 1899, cria o heterónimo Alexander Search, que escreve poemas em inglês; a partir daí, entre pseudónimos, heterónimos e semi-heterónimos, contam-se, pelo menos, 72 nomes inventados e que constituem muitas outras faces do artista. Mas é entre 1912 e 1914 que se formam no seu espírito os mais conhecidos, a que chamou Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos. Afirma que o dia 8 de março de 1914 é o "dia triunfal" da sua vida, pois surge o "mestre" Alberto Caeiro a escrever os poemas do Guardador de Rebanhos. E, nesse mesmo ano, ganham contornos definidos os discípulos Álvaro de Campos e Ricardo Reis, embora este último nascesse no seu espírito em 1912. Outros vão aparecendo, dos quais merece destaque "Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa", que considera um "semi-heterónimo".
Embora tudo isto possa parecer um jogo ou uma mistificação, temos de considerar que a criação dos heterónimos é contrabalançada por uma inteligência superior que soube muito bem enquadrar Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos nas correntes europeias da época.
Mas, além disso, e independentemente de qualquer explicação, que significará este fenómeno de heteronímia? Fernando Pessoa, numa carta a dois psiquiatras franceses, datada de 10 de junho de 1919, afirma que, do ponto de vista psiquiátrico, é um histero-neurasténico, cujas características se revelam, por exemplo, na instabilidade de sentimentos e de sensação, na oscilação da emoção e da vontade. Deste modo se poderá talvez compreender os heterónimos como aspetos complementares do mesmo ser e resultados de um tal temperamento. "A dificuldade de adaptação à vida por excesso de visão ou por anemia da vontade, a incapacidade de concentração", é o que significarão tais heterónimos. Enquanto Álvaro de Campos, no dizer de João Mendes, é vítima e porta voz dos seus desesperos interiores, Alberto Caeiro e Ricardo Reis representarão as compensações ideais dos fracassos e da angústia habitual de Álvaro de Campos.
Os heterónimos "são como personagens à procura do autor. São personagens de um drama. Cada um é diferente dos outros e fala e procede tal qual é". São os companheiros psíquicos, como ele considera ao dizer "eu e o meu companheiro de psiquismo Álvaro de Campos".
Sem uma enumeração exaustiva, outras personagens deste "drama em gente" são, por exemplo António Mora, Raphael Baldaya, Charles James Search (irmão de Alexander), G. Pacheco, A. Barão de Teive, A. Crosse (que concorre a concursos de charadas em jornais ingleses), I.I. Crosse, Thomas Crosse e Diniz da Silva, Vicente Guedes, Robert Annon e David Merrick, Jean Seul de Méluret, Joaquim Moura Costa, Torquato Mendes Fonseca da Cunha Rey, Carlos Otto, Pantaleão, António Seabra, Frederico Reis (primo ou irmão de Ricardo Reis), Botelho e Abílio Quaresma, F. Antunes, Frederick Wyatt e os seus irmãos Walter e Alfred, e, inclusive, uma voz feminina chamada Maria José.
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