Hicsos

O termo Hicsos (corruptela grega) deriva do egípcio hekau khaswt, cujo significado é "senhores de terras estrangeiras". Abrangia não apenas um povo ou uma origem mas todo o conjunto de populações estrangeiras que se estabeleceram no Egito, principalmente, no Delta, a partir do fim Império Médio, mais concretamente c. 1800-1650 a. C., ou seja, depois da XIII dinastia. Impuseram o seu domínio sobre o Baixo Egito (Delta) durante o Segundo Período Intermediário (1650-1550 a. C.). Pode-se hoje aferir que foram os Hicsos os responsáveis pelo fim do Império Médio.
Várias ideias giram em torno dos Hicsos, como a de que eram grupos de povos palestinenses (ou pelo menos os seus chefes) que terão ocupado de forma violenta o Delta na XIII dinastia. Ora, hoje presume-se que essa instalação terá ocorrido de forma gradual e pacífica, devido ao enfraquecimento do poder durante aquela dinastia e à sua deficiente administração, permeabilizando o Egito, desde sempre uma terra inviolável. Terão passado pelo corredor sírio-palestinense mas tal não significa que daí fossem obrigatoriamente originários. Podem-se inscrever, por outro lado, no grande movimento de migrações de povos no Mediterrâneo oriental e Crescente Fértil durante os séculos XVIII-XVII a. C. Os Hicsos podem também ter resultado da união das populações estrangeiras (de origem semítica na maior parte) estabelecidas no Delta oriental desde há muito, as quais terão depois sido agrupadas em torno das chefias de elementos oriundos de novas vagas de povos sírio-palestinenses integrados gradualmente no Baixo Egito a partir do fim do Império Médio, os quais aproveitando as debilidades governativas dos faraós egípcios, acabaram por assumir o poder de todo o reino do Nilo. Egípcios não eram, como atestam os nomes semíticos de soberanos hicsos do Delta como Khyan, Joam ou Jakbaal c. 1650-1550 a. C.). A sua origem era asiática, portanto, como demonstram uma série de textos do Império Novo, embora haja ainda muita ambiguidade quer em termos de provas científicas (na arqueologia, por exemplo, apesar das semelhanças de cemitérios hicsos com outros núcleos funerários na Síria-Palestina de épocas anteriores) quer dos estudos daí decorrentes. Apesar de terem assimilado os costumes e a religião dos Egípcios, tendo Seth como divindade principal, os Hicsos conservaram no Egito cultos sírio-palestinenses e mesopotâmicos como Anath ou Astarte. Conservaram também a estrutura administrativa dos Egípcios, além da sua escrita hieroglífica, bem como as suas titulaturas reais. Em termos artísticos, conservaram também as tradições estéticas egípcias.
Descobertas de objetos com inscrições de nomes de Hicsos na Anatólia, em Creta, no Iraque ou na Núbia revelam também não apenas contactos comerciais como também acordos diplomáticos, como aconteceu com os Núbios. A "capital" dos Hicsos, ou da dominação do Egito por estes no Segundo Período Intermediário, foi Avaris (ou Auaris), uma verdadeira colónia asiática no Delta oriental, a partir da qual empreenderam uma deriva para o Delta ocidental e depois para Mênfis, na segunda metade do século XVII. Nesta fase ocorreram alguns episódios militares violentos, com supremacia técnica e operacional dos Hicsos. O primeiro "soberano" hicsos conhecido foi Salitis, fundador da XV dinastia, composta essencialmente por "faraós" daquela proveniência. A XVI dinastia ainda foi toda ela dominada pelos Hicsos, embora haja dúvidas acerca de tal.
Durante o período dito "Hicso" do Egito foi intenso o uso dos cavalos, principalmente na arte da guerra, devendo-se-lhes a introdução das atrelagens e subsequente criação de "carros de combate", que permitiram o desenvolvimento de novas técnicas e estratégias militares. Também a khepesh, ou espada curva, foi então introduzida, a par dos elmos e couraças em armadura a proteger o tronco dos soldados. Ironicamente, foi provavelmente o uso de todas estas novas técnicas militares pelos Tebanos (Alto Egito, onde a dominação dos Hicsos não se fez sentir tanto) que os ajudou a derrotar os Hicsos e a entronizar Ahmés (c. 1550-c. 1527/25) como o primeiro faraó da XVIII dinastia e fundador do Império Novo (1550-1069 a.C.), que marca a retoma da soberania do Egito pelos egípcios. Era o fim dos Hicsos no Egito, uma época não tão negativa como o Império Novo a retratou.
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