História

A História na Antiguidade
Os autores clássicos, como Heródoto, Tucídides e Políbio entre os gregos, e Tito Lívio e Tácito entre os romanos, como nomes maiores, incluiram o facto histórico dentro das leis imutáveis que comandam a natureza e os seus ritmos, à frente das quais está o ciclo biológico, pelo qual a história é um ciclo sem princípio nem fim transcendental. Caracterizava-se, segundo aqueles pensadores, por ser um facto humano, não dos deuses, e sempre presente. O objeto do conhecimento histórico, apesar de aparentemente se debruçar sobre o indivíduo e as diversas situações circunstanciais que ocorrem no espaço e no tempo, prende-se acima de tudo com as essências permanentes no tempo, sempre sujeitas a um ciclo. Estas essências eram, segundo os autores clássicos, a sua própria cultura em oposição àquilo que designavam de "bárbaros", as pólis, a cidade de Roma e todo o seu império, a "democracia" ateniense, a criação artística, entre outras. Foi entre os clássicos que surgiu o primeiro manual básico para o historiador, com Luciano de Samóstata (122-200), no seu Como Escrever História, em que sublinhava a imparcialidade e a escravidão do historiador à verdade, a clareza do discurso e isenção. A mensagem histórica ganhou acima de tudo, com os gregos e romanos, poder narrativo, já que antes não passava de registos ligados a genealogias reais ou bíblicas ou a atos de governação próprios dos povos pré-clássicos. Já assim faziam os antigos chineses e japoneses.

A História na Idade Média O Cristianismo bipolarizou a história, concebendo duas linhas de projeção, a natural e a sobrenatural, uma tendência aliás que já se desenhava no helenismo tardio e nas correntes bíblicas dos hebreus. No entanto, estas duas projeções dependiam sempre da vontade superior de Deus, o que conferia um sentido transcendental à historiografia de matriz cristã. Este sentido não é completamente percebido pelo homem, mas encaixa-se na fé, ganhando um sentido de história providencial de matriz agostiniana. As principais correntes desta matriz historiográfica são: a bíblica, a patrística (Santo Agostinho, por exemplo, com a sua filosofia da história) e a escolástica, esta já medieval, teorizada e desenvolvida por São Tomás de Aquino. Deus, a Divina Providência, era o grande regulador do devir histórico, da marcha do mundo na patine dos tempos. Da historiografia medieval, cujos géneros maiores são as crónicas, cronicões e as hagiografias. Os autores mais afamados foram Froissart, Comines, Ayala e, em Portugal, Fernão Lopes. A historiografia medieval estava quase sempre regulada por interesses régios ou eclesiásticos, ganhando assim um carácter apologético e laudatório, um pouco como as crónicas dos séculos XVI, XVII e XVIII.

A História depois do Renascimento
No Renascimento, dá-se a laicização da ciência histórica, afastando-se o facto humano da teologia, como fez Dante e Maquiavel e, principalmente Jean Bodin, que deu uma perspetiva muito mais abrangente e plural, num plano empírico e portanto científico, ao conceito e objeto da história, defendendo a sua articulação com outros ramos do conhecimento humano. Para além da redescoberta e imitação dos clássicos, a imprensa será o grande suporte material, a par de um certo enriquecimento dos Estados e o aparecimento de mecenas e protetores abastados. Os descobrimentos de novas terras, a Reforma e a Reforma Católica pós-Trento (1545-1563) serão outros vetores essenciais na evolução da historiografia renascentista e na crescente difusão das suas obras, cada vez em maior número.
Todavia, no século XVII, com Descartes e Bossuet, ressurgirá a tendência providencialista da história, pois aquele autor defendia que é impossível conhecer-se a verdade histórica, ainda que no século XVII outros autores, como Locke e Hobbes, afirmassem que todo o conhecimento provém da experiência. Mas o providencialismo histórico manteve-se como principal corrente mesmo nas Luzes, no século XVIII, embora os historiadores iluministas tenham substituído Deus pela Razão e a salvação espiritual pela natural. Reforçava-se assim o progresso do racionalismo baseado na experiência desde o tempo da barbárie irracional. Montesquieu, no seu L´Esorit des Lois definiu as leis como motoras da história, não na perspetiva legislativa ou do Direito, mas no entendimento do seu funcionamento nos fenómenos físicos ou sociais, cuja causa deve ser encontrada na moral. Vico, na sua Scienza Nuova (1725) recuou perante a tendência racionalista das Luzes e concebeu a história como retorno aos primórdios do Homem e das instituições, reforçando o seu papel criador (a história como ideia do nascimento, crescimento e decadência dos povos).

A História no século XIX
O debate sobre a história era cada vez mais alargado, com os filósofos do século XIX a proporem novas interpretações acerca do processo histórico. As teorias idealistas de Kant, que evidenciou a existência de leis históricas acima das liberdades individuais, ou de Fichte, que baseava a evolução histórica numa ideia única anterior aos acontecimentos, realizável na dialética entre a tese, a antítese e a síntese e missionando o historiador para acima de tudo compreender o presente, foram conjugadas e sintetizadas por Hegel na sua Filosofia da História. Nesta obra, Hegel defende que o único processo histórico é o humano, enquanto projeção das ideias, campo que são da investigação histórica. Os factos, remata, são a única fonte válida para conhecer as ideias do processo histórico. A história depositava com Hegel a sua confiança na objetividade, nos factos enfim. O que forneceu legitimação teórica à corrente positivista da história, em que pontificaram nomes como Ranke. Comte, fundador do positivismo, defendia que história e natureza têm as mesma leis e metodologia, baseada na comparação empírica e na interpretação racional dos dados. A escravidão ao documento, por exemplo, radica no positivismo, que proporcionou a elaboração de uma investigação ampla e rigorosa, principalmente dos factos políticos e ideológicos, surgindo por isso obras de grande erudição e repertórios documentais imensos. A história positiva é, como dizia, Ranke, a exposição objetiva dos factos tal como se produziram. Entre os grandes historiadores positivistas, destacam-se Michelet, Thierry e Thiers.

A História na Época Contemporânea
Mas a reação ao método positivista de abordar a história logo suscitou críticas, principalmente pelos defensores do "eu" subjetivo do historiador ou dos que aplicaram as leis evolucionistas de Darwin ao conhecimento histórico. A história era cada vez mais uma ciência independente em termos metodológicos e filosóficos. Marx, por exemplo, também não deixou de interpretar a história, que considerava como uma evolução dos sistemas de produção e das relações sociais, apontando as desigualdades de repartição da riqueza como geradores de conflitos de relações, o que define o progresso e o curso da humanidade. A conceção de história oscilava, em finais do século XIX, entre o positivismo, o marxismo, as ideias evolucionistas e o individualismo, para além da ideia de ciclo, em que às oito culturas que constituem a história universal se sucedem irreversivelmente três etapas de decadência. O determinismo de Taine marcou também a evolução do conhecimento histórico, preconizando a influência do meio sobre a dos acontecimentos.
A partir dos anos 30, surgem novas teorias, das quais se destaca a de Ortega y Gasset, que defendia que a história é uma cadeia de factos que respondem a uma "razão histórica". A história, reagindo à conceção nacionalista destes "anos de aço", procurava cada vez mais valorizar o aspeto humano, tocar nos valores intangíveis da religião, das tradições, dos sentimentos, das mentalidades. A esfera das relações humanas era um novo campo de estudo da história, graças a figuras como Toynbee e Spengler. Era também o tempo de redescobrir as grandes civilizações da Antiguidade, da procura da interdisciplinaridade.
Mas foi na altura da Segunda Guerra Mundial que a conceção de história ganhou um novo rumo e uma nova metodologia. Foi o tempo de Lucien Febvre, de Marc Bloch e de Fernand Braudel, da escola francesa dos Annales, quando o conceito de história se desvalorizou face à metodologia. A história dos Annales tornou a história uma ciência social, interessada em fontes indiretas e imateriais, rechaçando o positivismo. O estruturalismo desenvolvido na antropologia por Claude Lévi-Strauss era então importado pela "Nova História" dos Annales, permitindo aos historiadores problematizar de forma mais coerente as estruras inerentes às sociedades. Os acontecimentos concretos, fugazes e de curta duração, não se podem observar diretamente, o que se pode fazer nos de longa duração, pois os aspetos essenciais reproduzem-se no tempo. Era o triunfo do homem, do social, do facto humano na sua totalidade. Desde o século XIX, entretanto, desenvolvia-se a história económica, de importância crucial para a compreensão dos acontecimentos sociais e políticos. Atualmente, desenvolvem-se novos campos do saber histórico, como o da cultura, da religião, das mentalidades, dos fenómenos marginais e maravilhosos, dos temas, enfim, ligados ao homem mas tradicionalmente afastados dos trabalhos de pesquisa histórica. Há, acima de tudo, uma cada vez maior aproximação da história a outras ciências (paleografia, epigrafia, numismática, estatística, biologia, medicina, heráldica, sociologia, antropologia, filosofia, arqueologia, história da arte, geologia, economia, etc.) e às diversas técnicas e tecnologias, o que perspetiva uma melhor abordagem do objeto desta velha ciência filha de Clio (musa da história) e uma melhor compreensão da evolução humana no tempo e no espaço.

Períodos da História
Um outro aspeto ligado à história é o da discutível divisão cronológica, cujas fronteiras são difíceis de definir. No entanto, a periodização da história é uma realidade. Assim, temos, a Pré-História, a Antiguidade Pré-Clássica e a Clássica, a Idade Média (Alta, Média e Baixa, para os mais puristas), a Época Moderna e a Contemporânea, falando-se já na Pós-Moderna.
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