homonímia

Relação semântica existente entre duas palavras que possuem a mesma forma gráfica e/ou fonológica mas que referem entidades diferentes (Ex: A 10 de maio a firma de contabilidade firma contrato com a empresa de telecomunicações). São exemplos de homónimos:

<cura> (pároco) <cura> (ato de curar; forma do verbo curar)
<dó> (nota musical) <dó> (comiseração) <saia> (nome, peça de roupa) <saia> (conjuntivo do verbo sair)
<são> (saudável) <são> (pres. do verbo ser)

Teoricamente, define-se a homonímia pela existência de dois lexemas que partilham a mesma forma fonológica mas cujos significados não apresentam nenhum tipo de relação semântica entre si. O problema é que esta definição só pode ser encarada de um ponto de vista sincrónico, uma vez que são vários os pares de palavras que hoje não parecem possuir nenhuma relação entre si, mas que afinal estiveram relacionados anteriormente por uma relação de polissemia como vêm provar estudos diacrónicos e etimológicos dessas palavras. Um caso que serve de exemplo é o do par de palavras <bolsa> (mercado de valores) e <bolsa> (saco de pele ou cabedal). Uma observação sincrónica destas palavras permitiria concluir que os seus sentidos não têm nada a ver um com o outro e que estaríamos perante um caso de homonímia, o que levaria a colocá-las em duas entradas diferentes num dicionário. Porém, uma análise etimológica destas palavras permite perceber que estas palavras partiram de uma relação de polissemia criada por metonímia, uma vez que o nome de Bolsa de Valores deriva do nome de uma família de banqueiros belga van der Burse, cujo escudo tinha três bolsas (=sacos de pele). Outro exemplo está relacionado com os atualmente considerados homónimos <banco> (=assento) e <banco> (=instituição financeira). Mais uma vez estamos perante um caso de polissemia que se esqueceu: as transações eram inicialmente feitas por cambistas na rua, sentados em bancos. Rapidamente com a evolução do sistema financeiro <banco> (=assento) ganhou o significado de lugar/ instituição onde se fazem transações financeiras. Estes são dois dos imensos casos de homonímias existentes nas línguas que surgiram de polissemias que foram esquecidas pelos falantes.
A distinção entre casos de homonímia e de polissemia é um dos problemas mais complexos em lexicografia e em semântica lexical, como se pode observar pelas opções nem sempre coincidentes que são tomadas pelos lexicógrafos quando decidem que uma palavra constitui uma entrada no dicionário com várias aceções (polissemia) ou várias entradas com a mesma forma (homonímia).
Existem assim dois critérios possíveis para identificar palavras homónimas:

Critério etimológico: a homonímia resulta da evolução histórica de palavras provenientes de étimos diferentes cuja forma a certa altura coincidiu:
• sanum > são / sunt > são

Este critério é o mais rigoroso, mas é também o mais difícil de ser concretizado a não ser por filólogos que estudem a história da língua. O falante normal apenas possui um conhecimento sincrónico da língua e é nesse tipo de conhecimento que ele se move.

Critério sincrónico: a homonímia acontece entre palavras que possuem a mesma forma gráfica e fonológica mas que pertencem a campos semânticos completamente distintos para o falante:

• <café> (=planta/ semente) / <café> (=estabelecimento)
• <serra> (=cordilheira) / <serra> (=ferramenta)

A teoria dos protótipos trouxe um importante contributo para a análise da homonímia e da polissemia dentro do paradigma teórico do cognitivismo.
Como referenciar: homonímia in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-12-10 03:03:11]. Disponível na Internet: