Hora di bai

Hora di bai e, também, "Evasionismo" são expressões poéticas, vindas da época de 30, que serviram para caracterizar literariamente a forte característica do povo cabo-verdiano relacionado com a emigração e não podem ser, de maneira nenhuma, entendidas como desejo de rutura com as raízes que marcam o homem cabo-verdiano.
O homem de Cabo Verde é um ser inquieto, sempre atormentado pelo desejo e pela esperança da partida. Trata-se de uma esperança ilusória, mas à qual o cabo-verdiano não pode furtar-se, dadas as circunstâncias económicas da ilha; representa no complexo psicológico do homem cabo-verdiano um sentimento coletivo: o sentimento de que a emigração constitui a única solução válida para os problemas da ilha.
Há, contudo, que mostrar a diferença entre dois "conceitos" de emigração, delineados e explicados pela própria postura e sentimento do homem cabo-verdiano em relação a essa mesma saída: de um lado, tem-se a designação de Hora di bai, do outro, a designação de "Evasionismo". A ligar estas duas designações, tem-se o elemento "mar", que ora aparece como entidade ligada à vivência e ao ambiente familiar e rotineiro, ora aparece como mar "individualizável", que colabora ou aprisiona os "destinos" coletivos da libertação espacial e económica. Hora di bai é a expressão poético-musical de um determinado condicionalismo geográfico e económico - aspeto este que talvez distinga esta expressão da temática do chamado "Evasionismo". Expressão consagrada pelo povo como é Hora di bai, ela sugere não um momento isolado, mas algo que se integra no fluir da vida cabo-verdiana, algo que comummente se relaciona com uma movimentação coletiva.
Hora di bai, como fase que é de um processo, a emigração, está necessariamente impregnada daquilo que esta representa para o cabo-verdiano,o mesmo que para qualquer outro povo: a interrupção violenta das relações que ele estabeleceu com o seu meio natal, culminando num momento extremamente doloroso.
Hora di bai representa, no campo psicológico do homem cabo-verdiano, um sentimento de que a emigração constitui a única solução válida para os problemas económicos. E é naturalmente na hora da partida que surge a inquietação provocada pela rutura dos laços que prendem o ser humano à sua terra natal. O habitante cabo-verdiano concebe-a apenas como solução provisória e inevitável. É por isso que, abandonado o arquipélago, ele procura fixar-se numa região onde o seu trabalho seja bastante bem remunerado para lhe permitir regressar o mais rapidamente possível. Há que salientar que o homem cabo-verdiano nunca abandona verdadeiramente o seu arquipélago, uma vez que, mesmo longe do seu país, o exilado continua em contacto estreito com a sua terra natal: por carta, por manifestações culturais tipicamente cabo-verdianas que ele transporta e adapta à terra de exílio, pela música, pela alimentação, modo de vida, etc.
Há, no entanto, os casos extremos em que a partida como que se desintegra do processo de que logicamente faz parte, isolando-se, por assim dizer, do complexo social e económico que a permite e a explica, para se reduzir a um momento meramente cronológico, adquirindo o relevo e o significado de um meio de libertação - de um meio de libertação relativamente à impossibilidade de sobreviver em Cabo Verde. É esta impossibilidade de sobrevivência que, levada às últimas consequências, provoca o "desespero de querer partir", chegando-se aqui ao conceito de "Evasionismo".
O elemento "regresso" está sempre presente em qualquer cabo-verdiano que parte. Assim, o homem cabo-verdiano vira-se para o mar como elemento a que, por falta de condições económicas, recorre para conseguir realizar-se: o homem emigra por circunstâncias evidentes de seca, fome e desemprego, mas a enorme distância a que se encontra não evita que o seu pensamento esteja dominado pelo desejo de nunca deixar em definitivo o chão que o viu nascer.
Em resumo, poder-se-á dizer que o cabo-verdiano tem todos os motivos para emigrar, mas, por típicos traços psicológicos, por inadaptação ao novo meio social ou ainda pela fraqueza das saudades da terra que deixou, quase sempre regressa a esta, logo que consegue amealhar o dinheiro suficiente para viver em melhores condições no local onde nasceu.
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