I Reich (Sacro Império Romano-Germânico)

As causas da formação do Sacro Império Romano-Germânico (Heiliges Römisches Reich Deutscher Nation, em alemão) apresentam semelhanças com as do seu antecessor, o Império Carolíngio: a tradição do antigo Império Romano, a união da Cristandade sob um só poder e a própria mentalidade da época, desejosa de uma Europa unida sob um só governo. Este projeto político, todavia, estava entravado pela fragmentação do poder e feudalização da Europa, ao passo que a unificação religiosa parecia mais fácil, apresentando-se como única forma de unidade concretizável, mercê do crescendo de importância do poder papal.
Na divisão do império de Carlos Magno em 843 em Verdun, cria-se o reino da Francia Oriental, ou Germânia, onde se extingue em 911 a dinastia carolíngia. A coroa germânica, na posse de grande parte da antiga Lotaríngia (território que separava a Germânia da França), passa a ser uma monarquia eletiva. Este processo conduzirá ao trono, em 936, Otão I da Saxónia, que funda uma nova dinastia.
Este monarca estava perfeitamente imbuído do espírito e mentalidade da época, sonhando restaurar a antiga unidade imperial e cristã romana no Ocidente. Assim, na sequência de uma série de conquistas (Lorena, Itália, vitória de Lechfeld sobre os Húngaros em 955), é coroado imperador em Roma pelo papa João XII, em 962, intitulando-se Imperator Augustus, para além de se dizer afirmar como enviado por Deus para unir a Cristandade. Seu filho intitula-se, na senda do renascimento do Império Romano, Imperator Romanorum (Imperador dos Romanos). Otão III, filho do anterior, instala-se mesmo em Roma em 998, fazendo eleger papa o seu amigo Gerberto, ou Silvestre II, pontífice do ano 1000. Criava-se assim o Império, expressão pela qual era conhecida a maior instituição medieval, compreendendo a Alemanha, a Áustria, o Norte de Itália, a Borgonha, para além das conquistas limítrofes em várias épocas. Autojustificava-se com o Direito Romano, fundamento jurídico das pretensões imperialistas dos Romanos que agora usava a seu favor com os novos conceitos de poder, pelo qual cada rei era imperador no seu país. O sistema era eletivo (legitimado em 1356 com a Bula de Ouro, de Carlos IV), podendo apenas as casas ducais alemãs receber o título imperial, elegendo entre os seus representantes o Rei dos Romanos, ao qual deviam vassalagem. A estrutura política apoiava-se em principados territoriais, laicos ou eclesiásticos, que detinham o poder político e o controlo social efetivo.
O poder do Império era enorme na Cristandade, depondo e escolhendo papas da sua confiança, até que um deles, Nicolau II, transfere para o colégio de cardeais o poder exclusivo de eleição papal, agitando ainda mais o conflito entre o poder espiritual (Roma) e o temporal (Império). A transição do século XI para o século XII marca a primeira grande crise imperial, motivada pelo reforço do poder do papa, o que colide com os anseios imperiais de domínio absoluto da Cristandade. A Questão das Investiduras e as Lutas do sacerdócio e do Império estão entre as maiores polémicas medievais. O Império lança-se na conquista de toda a Itália, tentando impor um equilíbrio de forças. No século XIII envolve-se mesmo em querelas internas naquele país, ao apoiar a fação dos Gibelinos contra a dos Guelfos (designação italiana da casa ducal da Baviera, os Welf, partidários do papa). Porém, agastado pelas querelas com o papado, o Império começa a declinar, com a unidade política e até a religiosa a desaparecerem gradualmente, em especial no século XVI, quando a Reforma luterana divide completamente a Cristandade e fundamentalmente a Alemanha imperial. É também neste século que se consolida o domínio da dinastia dos Habsburgos, que, desde 1273, exercia já larga influência no Império, culminada com a coroação de Carlos V em 1519 e mantida ininterruptamente até 1806.
Apesar das tentativas dos Habsburgos de entravar a formação de nacionalidades na Europa Central e Itália - a unidade era, pois, aparente -, para além de constantes guerras com a França, que nunca lhe reconheceu a suserania, o Império - já uma verdadeira ilusão geopolítica, governada por um imperador com poder simbólico - conheceu o desmembramento na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Pelo Tratado de Vestefália, de 1648, viu sancionada a sua divisão territorial e religiosa: a Áustria separou-se mesmo do Império, que passou a ser uma mera evocação do passado sem qualquer conteúdo político. Apesar de reter o avanço otomano com êxito na Áustria, o Império cedeu, na segunda metade do século XVII, territórios para a França, para além de assistir impotente à crescente emancipação prussiana, para quem perde claramente vantagem. O século XVIII é o cenário histórico da fragmentação política e territorial definitiva do Império, que acaba por sucumbir perante o avanço vitorioso dos exércitos de Napoleão (derrota alemã em Austerlitz, em 1805). Em 1804, o último imperador germânico, Francisco II de Habsburgo-Lorena, recebe o título de imperador hereditário da Áustria com o nome de Francisco I, renunciando, dois anos mais tarde, ao trono do Sacro Império Romano-Germânico. Assim se extingue a velha instituição medieval alemã.
Como referenciar: I Reich (Sacro Império Romano-Germânico) in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-08-19 22:25:19]. Disponível na Internet: