Igreja de Roma

A Igreja de Roma na Idade Média começou a ser moldada a partir do século V, depois da queda do Império Romano do Ocidente em 476. Com a irrupção das tribos "bárbaras" dentro do Império e os sucessivos ataques e saques a Roma (Visigodos, Hunos, Vândalos, Suevos, Hérulos, entre outros) ao longo do século V, sucessivas alianças do papado com os soberanos invasores e legislações relativas a eleições e governo da Igreja começaram a produzir alguma estabilidade e um clima de maior tranquilidade em torno da cadeira de S. Pedro. Depois do processo de transição que foi o século VI, com a pressão bizantina e dos Godos, surgiu a eleição do papa S. Gregório I (Magno), em 590, como um bálsamo apaziguador no clima conturbado de Roma. Com a paz que este Pontífice assinou com os Lombardos em 593, iniciou-se um clima de paz na Itália e formaram-se as bases do poder temporal dos Papas ao longo da Idade Média, através do seu poder de influência sobre territórios adjacentes, que cada vez mais se foram transformando em estados pontifícios. Em 607, a Igreja de Roma veria reforçado o seu primado universal, quando o imperador bizantino Focas (herdeiro do Império Romano do oriente, com capital em Constantinopla) reconheceu o primado da Igreja de Roma sobre todas as igrejas cristãs.
Antes, o batismo de Clóvis (rei dos Francos) em 496, a evangelização de outras regiões do Ocidente e a redação da Regra de S. Bento (c. 534-c. 547) e subsequente fundação da Ordem Beneditina (primeira experiência monástica ocidental bem sucedida), além das reformas litúrgicas e institucionais por parte de S. Gregório Magno, deram maior fulgor ao advento da Igreja Romana medieval e seu primado sobre todas as esferas da Cristandade. Esta posição forte permitirá a Roma ter uma atitude respeitada e de autoridade aquando da crise dos Iconoclastas, na Cristandade bizantina oriental, entre 727 e 843. Importante data para a Igreja de Roma e para a sua preponderância espiritual e como senhorio temporal, foi a fundação dos Estados da Igreja em 756, com o apoio de Pepino o Breve, soberano franco, reino que era nesta altura o maior aliado de Roma. Esta parceria foi consumada na sagração imperial de Carlos Magno em Roma no dia de Natal de 800, refundando, com o apoio da Igreja de Roma, a ideia de um novo Império Romano do Ocidente, ungido sacralmente pelo papado romano.
Em 847 o papa Leão IV (847-855) mandou construir muralhas em torno da basílica de S. Pedro do Vaticano (obras terminadas em 852), fundada por Constantino em 324-329, sobre a tumba do príncipe dos apóstolos e sucessor de Cristo, estrutura que seria depois ampliada e redecorada com frescos pelos papas S. Leão Magno (440-461) e S. Gregório Magno (590-604). O amuralhamento conferiu a dignidade e senhorialidade enquanto poder temporal, ao passo que as restantes obras sublimaram artisticamente a preponderância e importância espiritual da Igreja de Roma. Este engrandecimento material verificou-se em muitas outras igrejas não apenas de Roma como de Itália e do resto da Cristandade ocidental, apoiado também pela reforma beneditina de Cluny a partir de 910 e com o fermento do ideal de peregrinações, o desenvolvimento do comércio e o renascimento económico e cultural da Europa a partir do Ano Mil, quando por toda a parte surgiu "um manto branco de igrejas" e se anunciava o Românico. A Igreja de Roma caminhava para o seu auge no período medieval, ainda que tenha sido violentamente sacudida, não só em termos de memória histórica como de primado espiritual e imagem perante os cristãos, pelo grande Cisma de 1054, entre o papado romano e a Igreja de Constantinopla, ou bizantina, que ainda hoje perdura. Em 1059 criava-se o colégio cardinalício, numa época em que começa a reforma gregoriana, encetada pelo papa Gregório VII. Pouco tempo depois, começavam as Cruzadas (1096) e reafirmava-se a posição de Roma na Igreja ocidental. Apesar dos ataques normandos (1084) e dos ataques do Sacro Império Romano-Germânico, Roma conseguiu sempre impor a sua posição, impondo-se em Canossa (1077, submissão do imperador Henrique IV a Gregório VII), mas deixando arrastar a Querela das Investiduras durante algum tempo (até à concordata de Worms, em 1122), que abalou a imagem da Igreja de Roma e as suas pretensões em termos de poder temporal, que não foram muito lesadas, no entanto. Pouco depois, porém, problemas internos surgiram em Roma, depois da cidade ter vencido a vizinha Tivoli, com o povo romano a ser proibido de destruir a cidade vencida, o que provocou tumultos contra o papa na Cidade Eterna. Emergiu a figura revolucionária de Arnoldo di Brescia e o há muito extinto Senado do tempo do Império Romano, o qual declarou que Roma passava a ser independente do papado. Arnoldo e o senado, juntamente com os revoltosos, seriam vencidos em 1150-51, com o imperador Frederico Barbarroxa a apoiar o papado perante o estado de situação. O Senado não desapareceu, porém, como representante do povo de Roma. Mais tarde, o papado teria que enfrentar em Roma as revoltas de Cola di Rienzo, no século XIV, numa crise que rebentou em 1347 e se estendeu até 1354. De destacar a realização de alguns concílios em Latrão (Roma), importantes para o governo da Igreja universal, com destaque para a cidade de Roma, que tinha em 1200 cerca de 35 000 almas. Em 1300 a proclamação por Bonifácio VIII do Jubileu revelou-se importante para a revalorização de Roma, não apenas pela valorização estética de uma cidade em acentuada decadência material e urbana, dominada por uma aristocracia de pequenos senhores irrequietos sempre em conflito ora com o Imperador germânico ora com o próprio, de que resultavam revoltas e motins, que recrutavam apoios na plebe miserável, turbulenta e indigente que povoava Roma. Os mais de 200 000 peregrinos que vieram a Roma em 1300 (entre eles Dante, Giotto, Cimabue...) impulsionaram alguma revalorização e requalificação da cidade, que sempre viveu atrelada ao poder da Igreja, o único capaz de a governar e com poder de investimentos. De recordar também a criação da Inquisição romana em 1232. Mas esta reanimação da Igreja de Roma ficou toldada pela instalação dos papas em Avinhão entre 1305 e 1378, ano em que começo um novo Cisma, dito do Ocidente, que se resolveu fora da Itália e da Urbe, neutralmente em Constança, no Império, em concílio reunido em 1315-1317. Pelo meio, ficou a cidade abandonada a revoltas, como a de Cola di Rienzo, a fomes e à grande Peste Negra de 1347-1350, que se abateu também sobre Roma, com a população empobrecida e declarando-se abandonada pela Igreja, senhorio que substituiu o Império Romano desde 476. Depois do restabelecimento da autoridade papal em Roma em 1420, por Martinho V, voltava a Igreja definitivamente a Roma e começava o Renascimento e uma nova era para a Cidade Eterna.
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