Imperialização Islâmica

A criação e expansão do Islão (islam - "submissão a Deus, à vontade de Deus") iniciou-se com Maomé em 622, quando este deixou Meca e partiu para Medina com alguns dos seus seguidores (Hégira). Após a sua morte, em 632, deu-se uma expansão fulgurante do povo árabe, baseada nos ensinamentos do Corão, que impeliu o povo para uma guerra santa (Jihâd). De facto, o Corão acabou por ser o elo de unificação de diversos povos nómadas, muitas vezes rivais, numa comunidade solidária (umma). Nos seus versos estão as bases de um código de valores morais, sociais, jurídicos e mesmo políticos que ainda hoje regem o povo muçulmano (shari'ia).
Como Maomé não havia deixado qualquer filho varão, surgiu um conflito sucessório - que se tornou, aliás, uma constante no mundo islâmico. Foi então eleito califa (que significa sucessor de halifa) o sogro do Profeta, Abu Bakr (632-634). Sob o seu comando, e depois com Omar I (634-644), deu-se a unificação da Península Arábica e a conquista da Síria (Damasco - 635, Jerusalém - 638), do Egito (Alexandria - 642) e da Pérsia (642). O assassinato de Omar, em 644, levou ao poder Otmão (644-656), embora este tenha tido graves conflitos com Ali, genro de Maomé, por casamento com Fátima. Durante o califado de Otmão, cuja figura essencial é Moawiya, governador da Síria, reforçou-se a conquista da Pérsia e alcançou-se o Cáucaso e a Índia. Após a morte daquele califa, tomou posse Ali (656-661), que se envolveu em querelas com Moawiya, acabando este último por chegar ao poder através do assassinato de Ali. O novo califa (661-680) transferiu a capital para Damasco, mais próxima da cultura grega, e instaurou a dinastia Omíada, tornando o califado hereditário.
Os Omíadas foram responsáveis pela uniformização da escrita árabe e pela organização da administração central e provincial, que aproveitava os funcionários já existentes, ainda que estes fossem maioritariamente de outras culturas (gregos ou persas). Esta engrenagem administrativa implicou a estruturação das províncias e a cunhagem da primeira moeda árabe, o que possibilitou um significativo desenvolvimento das trocas comerciais. De facto, à medida que iam avançando, os árabes foram conquistando lugares-chave das rotas comerciais mediterrânicas, passando a dominar a ligação do Ocidente ao Oriente. A base de rendimento dos Estados residia nos tributos pagos pelas populações protegidas mas não convertidas. A política de tolerância omíada para com as populações dhimmi, isto é, "protegidos", as "gentes do livro" (cristãos e judeus) permitiu a arrecadação de tributos aos povos subjugados. Aliás, a conversão ao Islão não era forçada uma vez que os "novos" muçulmanos estavam assim isentos do pagamento de taxas, receitas essenciais à manutenção financeira do Estado.
Reflexo do espírito congregador e multirracial desta dinastia é a sua cultura, enriquecida com influências bizantinas (arquitetura e decoração das mesquitas de Damasco, Medina e Jerusalém) que se fundem com a tradição árabe (manutenção da tradição beduína pré-islâmica, notória na sua poesia). Na realidade, foi apenas nesta dinastia que surgiram os primeiros programas arquitetónicos islâmicos de grande envergadura.
Os Omíadas estiveram à frente do império islâmico de 661 até 750, período durante o qual conquistaram o Magrebe (Tunísia, Argélia, Marrocos), avançaram também para oriente e partiram à conquista da Europa com a invasão da Península Ibérica em 711, comandada pelo chefe berbere Tariq ibn Ziyad, que dará nome ao estreito de Gibraltar (djebel al-Tariq - "montanha de Tariq"). O seu avanço em direção ao Norte da Europa foi, porém, travado por Carlos Martel em Poitiers (732). Contudo, a presença árabe na Europa manter-se-á com a ocupação da Península Ibérica, principalmente na parte meridional, onde se forma ao al-Andaluz, que se sobrepõe ao reino visigótico. Esta região será o refúgio de Abd al-Rahman ou Abderramão (756-788), único omíada sobrevivente à chacina levada a cabo pela nova dinastia à frente do Islão, a dos Abássidas. Formou-se assim em Córdova um emirado independente de Bagdade, a nova capital do império abássida. Sob Abderramão III (912-916) o al-Andaluz converteu-se num califado, sendo Córdova o centro de uma civilização árabe-andalusa e a segunda cidade islâmica, superada apenas por Bagdade.
A dinastia abássida que então se estabelecera no império reforçou a uma vertente teocrática, impondo a vontade absoluta do Islão, sendo o califa simultaneamente a autoridade espiritual e temporal do império. No entanto, as funções de Estado são na prática transferidas para o vizir formando-se uma complexa máquina administrativa e burocrática, com funcionários qualificados e devidamente colocados consoante a função. Devido à localização geográfica da nova capital, a dinastia dos Abássidas gozou então de um período de grande prosperidade comercial e cultural. Local de encontro de diversas culturas, com particular relevo para a cultura iraniana (ou persa), assistiu-se a uma "idade de ouro" a nível intelectual que se refletiu nas mais diversas áreas do saber, desde a poesia, à teologia, às belas-artes e às ciências. Datam desta época os célebres contos das Mil e Uma Noites (califa Harum al-Rachid 786-809).
A partir de finais do século IX, ocorreram várias tensões no império (conflitos sociais, religiosos, políticos) que levaram à perda de hegemonia dos Abássidas, assistindo-se ao nascimento de diversas dinastias locais que irão retalhar o império islâmico.
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