Impérios Francês e Inglês (séc. XVII-XVIII)

O século XVIII, o "século das luzes", é a era do racionalismo, da crença no progresso do espírito humano e na história como caminhos para a civilização e para a felicidade. É uma época de antagonismos e de contradições, numa fase em que se opera a transição do antigo regime para o sistema capitalista. É também uma etapa crucial da expansão europeia no mundo, durante a qual se fazem viagens marítimas de exploração e descoberta, se assiste a um enorme surto do comércio intercontinental e à afirmação do imperialismo colonialista.

Na segunda metade do século XVIII houve um aumento substancial da construção naval e um melhoramento das técnicas de navegação, que possibilitou esse incremento das viagens de exploração motivadas pelo fascínio iluminista face à natureza, pelo desejo de conhecer todas as regiões do mundo e por evidentes interesses económicos. No fim desta centúria, pode-se dizer que há um conhecimento mais aprofundado de todo o planeta, embora permaneçam desconhecidas algumas zonas como o interior dos continentes como a África, a Ásia, a América ou a Austrália e Antártida.
Em Setecentos, o comércio à escala mundial iniciado no século XV abarcava cerca de 2/3 do comércio total e nele a França e a Inglaterra tinham um papel preponderante. Este comércio, essencialmente voltado para as Américas e para o Oriente, caracterizava-se pela americanização das trocas estabelecidas entre a metrópole e as colónias. Processado através da criação de circuitos marítimos, que interligam o continente europeu à África e à América, constituía-se deste modo como um "comércio triangular", por apresentar três vértices geográficos e económicos; no entanto este comércio era por vezes preterido por ligações diretas entre a América e a Europa, o que permitia uma recuperação menos demorada do capital.

As grandes metrópoles europeias tendem a desenvolver uma política de exclusivo colonial, contrariada pela relação existente entre a Inglaterra e as colónias da América do Norte, uma vez que estas colónias estão bastante próximas das Antilhas e evoluíram de um modo que lhes permitiu concorrerem com a metrópole abolindo assim o modelo de exclusividade colonial como o perfilhado, por exemplo, pela França.

Contudo, o comércio britânico continuava a ser o mais privilegiado na sua ligação com as Américas, porque a sua indústria manufatureira conseguia escoar os seus produtos para o mercado da América do Norte, onde havia um considerável poder de compra motivado pelos altos salários. O açúcar, o chá, o café e o tabaco das Antilhas eram consumidos em Inglaterra e reexportados para outras paragens. Dispunha ainda de um hábil sistema de permutas através do qual a Inglaterra chamava a si a prata do México e Peru e o ouro brasileiro, o que fazia de Londres a mais forte praça financeira da Europa.

Relativamente ao comércio francês, esta americanização era ainda mais evidente. A França, a partir da ligação entre Marselha e Cádiz, levava produtos manufaturados, em troca dos quais recebia café, açúcar e índigo provenientes das Antilhas.
Na Península Ibérica também se verificava esta americanização do comércio. A Espanha, através do circuito entre Acapulco e Manila (Galeão de Manila), permutava artigos têxteis e especiarias do Oriente por prata do México e produtos agrícolas do seu solo. Na Catalunha, por exemplo, desenvolveu-se um ativo centro económico, baseado nas piastras americanas. Portugal parecia, todavia, não beneficiar da melhor forma das grandes quantidades de ouro que chegavam do Brasil, pois muitas vezes funcionava como um intermediário na acumulação de capitais amealhados pela Inglaterra; só ocasionalmente em períodos de crise entre a França e a Inglaterra é que Portugal aproveitava convenientemente estes recursos.

O comércio que a Europa fazia com o Oriente funcionava de um modo distinto pois à partida estava condicionado pelas redes comerciais pre-existentes numa área do globo onde abundava a mão de obra e os setores industrial e financeiro estavam bastante desenvolvidos. A atividade comercial mantida com o Oriente também era dominada pelas grandes potências europeias, a França e a Inglaterra, que tomaram o lugar antes ocupado pela Holanda, a qual por sua vez o tinha tomado de Portugal, a primeira potência europeia a deter o monopólio sobre este próspero comércio.

O domínio franco-britânico foi conseguido pela criação de companhias comerciais de tipo monopolista, que transacionavam especiarias, tecidos de algodão, chá, ópio e metais, que eram comprados com metais preciosos da América. O sucesso da Companhia das Índias inglesa em meados do século XVIII significou um crescimento do tráfego comercial da Índia e da China.

O inusitado desenvolvimento do comércio à escala mundial resultou no alargamento da disputa colonial até ao Pacífico, onde até então não houve concorrência, exceto nas Filipinas espanholas. A França e a Inglaterra vão apostar em expedições marítimas nesta área, que levaram à colonização de zonas como a Austrália ou de ilhas do Pacífico, como o Tahiti ou a Nova Caledónia.
Nesta altura deu-se uma deslocação dos principais centros do comércio no interior da Europa. Alguns portos europeus beneficiaram da intensificação do comércio marítimo. Londres é de longe o principal porto, mas outros ganham também protagonismo, como é o caso dos portos de Liverpool, de Bristol, de Manchester e de Nantes. Também no Mediterrâneo se assistiu a alguma dinamização de Marselha e de Livorno, e não são descurados os rios e os canais, igualmente importantes para o comércio.
A França, em maior medida do que a Inglaterra, sentiu uma forte atração pela Europa. Já no século XVIII, à medida que se verificava uma diminuição da sua influência no Mediterrâneo aumentava a sua intervenção no Norte da Europa, nomeadamente nos mercados da Alemanha. Há um crescimento das transações com o Báltico, sem passar pelos Países Baixos. A Dinamarca e a Suécia procuraram proteger politicamente os têxteis de produção nacional, enquanto consumiam produtos coloniais como vinhos e aguardentes francesas.
As relações da Inglaterra com a Escandinávia intensificaram-se pelo facto de esta última fornecer madeiras e minérios à Inglaterra, utilizados nas frotas britânicas.

Esta expansão do mercado trouxe a acumulação de capitais, que nos casos da Inglaterra e da França se refletiram na duplicação do stock monetário. Londres tenta, com sucesso, superar Amesterdão, cidade que até meados do século XVIII era a mais forte praça financeira da Europa. Londres controla a economia da Grã-Bretanha e na segunda parte do século XVIII chega a ser o centro de comércio por excelência da economia mundial.

A Europa vivia de uma economia baseada numa política conquistadora apoiada nas colónias, que deveriam suprir as necessidades das metrópoles. Esta política não entra em colisão com algumas teorias ligadas ao pensamento liberal; só muito esporadicamente surgiam posições que vinham contestar este comércio de exclusividade bem como o colonialismo.

O domínio do mundo pela Europa acarretou o aparecimento de focos de luta em todos os continentes envolvendo, obviamente, as mais proeminentes potências europeias. Esta confrontação, pela primeira vez à escala do mundo, está relacionada com a Guerra de Sucessão da Espanha, com a Guerra dos Sete Anos e com a Guerra da Independência dos Estados Unidos da América.

Nesta disputa, a Inglaterra foi a incontestável vencedora, sobretudo depois da assinatura do Tratado de Paris, em 1763. Apesar de alguns reveses, a Inglaterra continuou a crescer, mantendo sempre a supremacia económica. Nem a Guerra da Independência dos Estados Unidos veio questionar a sua posição hegemónica, reforçada no domínio do Império britânico da Índia, instaurado, efetivamente, no século XIX.

A França perdeu muitos territórios da América do Norte (como a Luisiana e parte do Canadá) e renunciou à manutenção de uma política de expansão territorial iniciada na Índia, região onde ficou com apenas cinco feitorias costeiras.


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