Inês de Castro

Recriando o molde dos Infernos dos Namorados, as "Trovas que Garcia de Resende / Fez à Morte de Dona Inês de Castro", uma longa prosopopeia onde Dona Inês narra a história do seu amor e as circunstâncias da sua morte, endereçada por Resende às damas, como exemplo máximo de "gualardam de amor", legarão à tradição literária uma imagem do par amoroso como símbolo sublime do amor trágico. Aí a dama declara-se inocente e triste, pelo facto de a matarem "cruamente", evocando alguns dos momentos mais significativos da trágica história de amor: "Moça, menina" e "mui fremosa dama" vivia nos paços "mui honrada", de tudo "mui abastada" e era "mui querida", por D. Pedro, até, "pelos campos de Mondego", ver aparecer uns cavaleiros. O maior dramatismo da fala é obtido na cena em que, suplicante, pede clemência a D. Afonso IV, lembrando-lhe "qu' é fraco coração / sem porquê matar uma mulher". No canto III de Os Lusíadas de Camões, a "linda Inês", de "fermosos olhos", surge, inicialmente, feliz, despreocupada "nos saudosos campos do Mondego", em Coimbra, dominada pelo amor de D. Pedro e pelas saudades dele. A fidalga castelhana, amante de D. Pedro, filho de D. Afonso IV, quando é trazida diante do Rei, pelos "horríficos algozes", assume uma atitude de súplica: pede clemência e aponta a desproporção entre a fragilidade das vítimas que o rei quer punir (uma indefesa donzela e as criancinhas que deixaria órfãs) e a desumanidade dos "duros ministros" e cavaleiros. Conseguindo, com o seu discurso, comover o "Rei benino", "o pertinaz povo e o seu destino (...) lhe não perdoam". A execução de Inês é comparada, por Camões, com o assassinato de Policena pelo "duro Pirro": ambas se entregam à morte de forma serena ("Bem como paciente e mansa ovelha"), ambas deixam os familiares que delas dependem desamparados (num caso, os filhos de D. Pedro, no outro, a "mãe velha"; ambas foram incapazes de superar as razões que as conduzem à morte: a primeira, o "pertinaz povo e o seu destino" ou o "puro Amor"; a segunda, " a sombra de Aquiles". Na tragédia Castro de António Ferreira, o tratamento da personagem de Inês de Castro recebe, pela própria estruturação do género, um investimento que tende a aproximá-la de outras protagonistas de tragédias legadas pela antiguidade greco-latina, em quem se concentra a irredutibilidade do conflito amor/razão de estado, como, por exemplo, Antígona. Nos monólogos e nos diálogos com a sua confidente, a Ama, Castro manifesta continuamente a apreensão de o que o tempo de felicidade que vive deverá terminar em breve, presságios que são corroborados por sonhos premonitórios. Atemorizada por "sombras" e "tristes medos", "pensamentos tristes, pensamentos / escuros, carregados", mais do que pela própria vida, teme que algum mal aconteça a D. Pedro. Como em Os Lusíadas, a Castro entrega-se, numa cena que corresponde ao clímax da ação, corajosamente aos seus algozes e profere um discurso, fortemente argumentativo e apelativo, dirigido ao rei, denunciando a injustiça e crueldade do ato de que é vítima.
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