Inocêncio III

Papa italiano, de seu nome secular Lotário, conde de Segni, nasceu em 1160, na região do Lácio, no seio da alta nobreza, antiga e terratenente. Dada a sua condição social e poder económico, estudou Teologia em Paris e direito em Bolonha, as duas maiores universidades do seu tempo. Aqui moldou um forte e rigoroso espírito jurídico, ainda que nunca tenha sido um grande jurista como Alexandre III (Orlando Bandinelli, 1159-1181) o papa que o antecedeu.
Com vinte e cinco anos, em 1185, recebeu ordens menores, e já então se dedicou à escrita de obras de menor valia, como o Desprezo do Mundo. Ingressou no colégio cardinalício durante o papado de seu tio, Clemente III (1187-1191). Em 1198, ainda sem ter sido ordenado sacerdote, foi eleito papa. Iniciava-se então o apogeu do poder pontifício, conhecendo a instituição papal uma importância de topo à escala do mundo cristão. Mais do que o imperador, era agora o papa a figura de proa da Cristandade ocidental. Inocêncio III, enquanto legislador, juiz e administrador supremo, detinha em si o poder pleno e a partir dele exerceu uma soberania rígida e forte sobre a Igreja e seus súbditos seculares.
Apesar de estatura pequena e saúde fraca, foi uma figura que privilegiou a sabedoria universal, sendo dotado de um espírito lutador e sagaz, determinado mas moderado, possuindo também uma ideia concreta e própria da Igreja e do papado. Era autoritário, mas coerente, aberto ao exterior mas disciplinado e organizador, interventivo e defensor da ordem, que acreditava piamente ter sido estabelecida por Deus. Apesar de durante muito tempo ter sido qualificado como um homem de rigor e de férrea disciplina, acredita-se hoje que, para além dos seus dotes de pacificador e árbitro da Cristandade numa época difícil, era profundamente religioso, severamente ascético e de uma devoção interior profunda, o que fizeram dele também um orientador espiritual importante. Daí ele próprio se considerar não Vigário de S. Pedro mas sim de Cristo! Com esta supremacia espiritual e querendo intervir "contra o pecado", procurou sempre agir como um lugar-tenente de Cristo na Terra, o que define a sua atuação pontifical. Impondo o primado universal da Igreja, interveio energicamente nas eleições episcopais e obrigou os soberanos da Europa a serem investidos pelo papa, sem o que não seriam legítimos perante a Cristandade. Exerceu e estendeu a suserania papal a quase todos os reinos cristãos da Europa, intervindo em muitos deles, como em Portugal, Castela ou Aragão, por exemplo. Até em França, onde a suserania pontifícia jamais se impusera, e onde patrocinou e lançou a Universidade de Paris ao estatuto de maior da Cristandade. A Inglaterra e a Alemanha não fugiram à sua determinação político-religiosa. Por exemplo, nestes últimos exemplos, interveio no casamento de Filipe Augusto de França; pôs os reis de Inglaterra e França, bem como os da Alemanha contra este último Estado. João Sem Terra, em Inglaterra, por exemplo, acabou por capitular perante Inocêncio III e colocar o seu reino vassalo da Santa Sé. Foi também no seu pontificado que Roma conheceu alguns êxitos sobre o cisma grego, como sucedeu - ainda que pela força - na tomada de Constantinopla pelos cruzados em 1204, conquista esta que no entanto manchou a reputação de Roma.
Neste contexto de supremacia espiritual e temporal, procurou subtrair do mundo cristão todos os focos de heresia, como os Cátaros, tendo reagido inicialmente com brandura mas acabado depois, na sequência do assassinato, em 1208, do seu legado Pierre de Castelnau, monge cisterciense enviado a dialogar com os heréticos albigenses (ou cátaros), por convocar, em 1209, uma cruzada contra estes. Os massacres e violência inusitados não foram da sua responsabilidade, refira-se, mas sim da atitude fanática e rapace de Amalrici e de Simon de Monfort. Apesar de reticências iniciais, acabou por reconhecer novos movimentos espirituais na Igreja que depois redundaram naquilo que são as primeiras e maiores entre as Ordens Mendicantes: os Dominicanos (em 1207, para substituírem os cistercienses na reconversão dos cátaros) e os Franciscanos (em 1209, ainda de forma não oficial). A estes movimentos incutiu a obediência a Roma e o seu enquadramento normativo em Regras que aprovou e inspirou do ponto de vista jurídico, de forma a evitar que se tresmalhassem, como os cátaros, da unidade da Igreja, afinal o escopo máximo da sua vida. Reconheceu também a valia de outros movimentos pauperísticos e da sua importância para a renovação espiritual do Ocidente, como os Humilhados (1201), mas conteve muitas outras experiências que descambariam em seitas marginais, as quais reprimiu vigorosamente.
A sua maior realização pontifical foi a reunião do IV Concílio de Latrão, em 1215, assembleia (a qual convocou e a que presidiu) que renovou espiritualmente a Cristandade e reforçou o papel da Igreja como sua célula base e motriz. Teologicamente, impôs a definição da doutrina da transubstanciação e as prescrições sobre sacramentos como a Eucaristia pascal e a confissão. Estava então no apogeu do seu pontificado, ainda que na sua fase final, mas a Igreja e a instituição papal conhecia o seu momento áureo no período medieval, em tempo de aggiornamento e de grande dinamismo espiritual e reformador, em que a Igreja e o poder temporal se fundiram como nunca mais o fariam. Inocêncio III, por muitos considerado o maior papa da História da Igreja Católica até ao concílio de Trento (1545-1563), ou pelo menos o mais importante desde S. Gregório Magno (c. 540-604) ou até a par de S. Gregório VII (c. 1021-1085, o pontífice da reforma dita "gregoriana").
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