Intrigas e Querelas em Bizâncio

As intrigas que assumiram um maior significado em Bizâncio foram as que se prenderam com a religião. Muitas foram as crises religiosas que abalaram o império, como a que se manifestou durante o reinado de Anastásio I (491). Os monofisitas foram então confrontados com a religião instituída, sendo o monofisismo uma religião secretamente professada pelo imperador, à qual deu, pouco a pouco, uma maior liberdade de expressão. Esta tendência, somada à invasão árabe que se lhe seguiu, deu lugar a um período de agitação que prosseguiu mesmo após a morte do imperador quando Justino foi eleito para o substituir. Os ortodoxos reagiram mas não tiveram êxito no confronto com os monofisitas, que entretanto se tornaram num partido poderoso, colocando em risco o equilíbrio e união do império ainda durante o reinado de Justiniano (565). Porém, a tentativa de unificar o império sob o ponto de vista religioso falhou e, pelo contrário, apenas contribuiu para aumentar os antagonismos políticos e culturais.
Desenhava-se um novo período de crise no século VII, que se prolongou pelo início do século VIII motivado por problemas ligados à legitimidade dinástica e que levou a uma série de golpes de estado, gerando uma grande intranquilidade e colocando constantemente no trono imperial membros da família dos Heráclidas. O Império apresentava sinais de decadência exterior, embora durante o reinado de Heráclio se tenha verificado uma viragem importante que iria marcar e dar início ao Estado grego da Idade Média. Foi sentida a necessidade de dotar o Império de instituições novas dado o nascente equilíbrio político interno. Este equilíbrio não seria ameaçado se Heráclio não tivesse caído no mesmo erro de Justiniano, ao pretender conciliar os monofisitas com os ortodoxos com a ajuda do monoteísmo, o que levou a mais um período de querela religiosa que viria a afetar inclusivamente as relações do império com o papado.
A maior querela que atingiu Bizâncio foi a das imagens, geralmente designada de crise iconoclasta. No período em que Bizâncio se debatia com a invasão árabe, o imperador Leão III defendia tenazmente Constantinopla do avanço do invasor e proibia, simultaneamente, o culto das imagens, o que provocou conflitos com o papado. Sob Constantino V, uma grande parte do clero secular aderiu à iconoclastia e a doutrina atingiu a sua maior intensidade. Desta forma, a iniciativa imperial teve implicações no quadro da luta contra o império islâmico. De facto, o Islão crê na absoluta indivisibilidade de Deus, o que constituia o argumento principal dos muçulmanos para acusarem os bizantinos de idolatria. Assim, os imperadores Leão III (717-741) e Constantino V (741-775) decidiram acabar com o culto das imagens por forma a fazer face ao Islão. O concílio reunido em Hiéria em 754, estipulou então a interdição do culto das imagens e a sua destruição. Esta decisão iria encontrar uma forte oposição nos meios monásticos, o que provocou uma série de perseguições contra os monges que acabaram por emigrar para o Ocidente. Só com a imperatriz Irene é que as perseguições cessaram e se estabeleceu novamente o culto das imagens por determinação do Concílio de Niceia, em 787. No entanto, o retorno à ortodoxia não foi definitivo. As ambições desmedidas de Irene provocaram a sua queda e os anos que se seguiram à perda do trono marcam o segundo período iconoclasta. A doutrina voltaria a renovar a sua força durante o reinado de Leão V e de Miguel II, fundador da dinastia armoriana, prolongando-se durante o reinado do seu filho Teófilo. No entanto, revestia características diferentes daquelas que tinha durante Constantino V, pois agora o partido ortodoxo via-se mais reforçado benificiando da menor atenção que os imperadores votavam à questão religiosa. A ortodoxia só viria a triunfar em 843, abandonando-se definitivamente qualquer doutrina iconoclasta.
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