Itália: Terra de Mercadores e Artistas (séc. XIII)

A Itália de Duzentos encontrava-se dividida num conjunto de pequenos Estados independentes. A região mais rica era então a Setentrional, onde as cidades cresciam à custa da anexação das terras limítrofes, dando origem a prósperos Estados independentes, com as atividades comerciais e industriais bastante desenvolvidas.
As repúblicas mais poderosas eram as de Génova e de Veneza (marítimas) e a de Florença na região da Toscânia. Veneza florescera com as Cruzadas, em especial com a 4.ª Cruzada. Esta permitiu-lhe controlar alguns domínios na Península Balcânica e nas ilhas vizinhas. Próximo do mar Negro e do mar de Azov, Veneza veio a fundar feitorias, de entre as quais se destacava a de Tana. Estas feitorias permitiam-lhe transacionar escravos, oriundos na sua maioria da Transcaucásia, entre outros produtos. A temida frota mercante veneziana, dominadora do Mediterrâneo, chamada "Soberana dos Mares", possibilitava o transporte de produtos orientais nas galeras di mercato, produtos esses que depois circulavam nas feiras europeias. Outro negócio muito rentável para a república eram as indústrias de seda e do vidro, produtos muito apreciados na Europa.
O controlo destas riquezas estava concentrado nas mãos dos grandes mercadores, que partilhavam o poder em Veneza, tutelado pelo Doge, o governador eleito, supervisionado pelo supremo órgão de poder, o Grande Conselho. Este era composto pelos mais ricos mercadores de Veneza, que tinham o privilégio de escolher o Doge. O desmedido poder destes homens era muitas vezes contestado pelo grosso da população, que movia intrigas e conspirações contra o governo da oligarquia comercial. Para se defender destes ataques, o Grande Conselho criou o Conselho dos Dez, constituído por agentes secretos, encarregado de neutralizar qualquer atentado ao poder deste governo, mesmo que isso implicasse a morte dos envolvidos. Este sistema de espionagem não excluía a investigação do próprio Doge.
A cidade de Veneza beneficiou da riqueza dos seus mercadores, que a dotou de elegantes pontes sobre os seus inúmeros canais e de luxuosos palácios. No centro da cidade - a Praça de S. Marcos - foram edificados os mais emblemáticos e ricos monumentos da cidade: o palácio dos Doges e a catedral bizantina de Veneza.
Génova, a grande rival de Veneza, também ela estava dominada pelos mercadores enriquecidos com as Cruzadas e com as feitorias estabelecidas em Sudak (Soldaia), Teodosia (Kafa) e noutros pontos do Mediterrâneo Oriental, a partir de onde mantinham relações comerciais com o Irão, a Ásia Central, a China, a Polónia e os principados russos. Quer Veneza, quer Génova protagonizaram, juntamente com as regiões do Báltico e Norte da Europa, no século XIII, um processo de "globalização" da economia europeia. Nos finais dessa centúria, o estreito de Gibraltar foi aberto à navegação cristã e o monopólio árabe do Mediterrâneo começou a ser posto em causa. A partir de então estabelecem-se rotas comerciais marítimas permanentes entre os polos mais ativos da Europa: precisamente as cidades-estado do Norte de Itália e a Flandres (até aí em contacto moroso e dispendioso através do continente, pela chamada "rota das feiras de Champagne"). Este movimento comercial, suscitador de riqueza para os seus principais agentes, dinamizou uma série de portos tocados pelas embarcações flamengas, genovesas e italianas (não devemos esquecer que a navegação daquele tempo era fundamentalmente de cabotagem, ou seja, à vista da costa).
Mas estas duas cidades não estavam sozinhas no panorama de prosperidade italiana. Na Toscânia, emergiu na Idade Média outro centro de primeira grandeza: Florença.
A cidade da "Ponte Vecchio" estava localizada num vale atravessado pelo rio Arno. No topo das colinas em redor deste vale os castelos de senhores feudais cobiçavam a república de Florença e entravavam o seu desenvolvimento comercial.
Na cidade-estado a produção industrial de tecidos e ourivesaria florentinos crescia, uma vez que a qualidade destes produtos os tornava bastante procurados na Europa e no Oriente. Do mesmo modo, as atividades bancárias eram sinónimo de riqueza e poder desta urbe. Florença estava integrada numa das principais rotas comerciais italianas, e era um centro de transações monetárias. Os banqueiros florentinos adquiriram fama na Europa por terem negócios com os papas e com os monarcas europeus. Estes dois fatores contribuíram imensamente para o enriquecimento e prosperidade desta cidade.
Os senhores que viviam nas colinas em redor da cidade, claramente atraídos pela fortuna e arriscando-se a serem ultrapassados, foram forçados a deixar as suas moradas e a fixarem residência no centro da cidade, onde construíram palácios semelhantes aos que tinham fora de muros.
Ainda no decurso do século XIII rebentou um conflito entre estes senhores e os cidadãos. Os cidadãos não tinham, obviamente, todos a mesma categoria sócio-económica; o povo dividia-se em popolo grasso (graúdo) e popolo minuto (miúdo). O primeiro grupo era representado pelas Sete Artes Maiores, que incluíam, entre outras, os médicos, os juristas, os industriais e os banqueiros. Os restantes mesteres pertenciam às Artes Menores, e estas por sua vez ao segundo grupo. A cidade era governada por um conselho - a Senhoria (Signoria) - de nove membros, sete eleitos entre o grupo dominante e dois entre as Artes Menores.
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