Jansenismo

Movimento criado pelo bispo holandês de Ypres, Cornellius Jansenius (Jansen), no século XVII. Este movimento, derivado do Cristianismo, baseou-se numa doutrina que contemplava a conciliação da liberdade humana com a graça emanada por Deus. Esta doutrina nasceu de uma interpretação livre dos escritos de Santo Agostinho feita por Jansenius na sua obra "Suma Agustinus seu doctrina S. Agostini de humanae naturae sanitae, aegritudine, medicina adversus Pelagianos et Massilienses" (publicada em 1640). Nesta obra, extremamente controversa e que foi condenada pela Igreja nos anos de 1641 e 1642, Jansenius utilizou princípios de cariz reformista (sobretudo de Calvino) e conjugou-os com os do Catolicismo, ressuscitando neste contexto algumas ideias do Pelagianismo (as questões do pecado original, da graça e do livre-arbítrio). Defendia o Jansenismo que a graça seria concedida através da predestinação, contrariando a teoria de que seriam as ações tomadas de acordo com o livre-arbítrio característico ao ser humano que faria recair sobre si (ou não) a graça divina. De igual forma, considerava o Jansenismo que o pecado original inclinou o género humano para o Mal. A contrição pelos pecados cometidos e a comunhão tinham de ser realizados com a alma completamente pura e arrependida, o que diminuía a frequência com que eram realizados estes sacramentos.
A doutrina jansenista não contemplava a incontestável obediência ao Papa nem o culto a Nossa Senhora, não reconhecia a capacidade das autoridades eclesiásticas de representação da vontade de Deus na Terra e contou entre os seus principais contestatários os Jesuítas e os Molinistas.
Apesar de declarada heresia e ter sido alvo de impedimentos e condenações, esta doutrina contou com apoiantes como Antoine Arnauld, Blaise Pascal, Saint-Cyran, alguns doutores da Sorbonne e algumas congregações carmelitas, oratorianas e dominicanas, tendo-se destacado pela prática dos princípios jansenistas o mosteiro cistercience feminino de Port-Royal (expulsas por Luís XIV, em 1705, devido a esta tendência, que ameaçava o Absolutismo, e a não terem aceite a bula papal "Vineam Domini"). Por volta de 1670, o vigor do Jansenismo enquanto teologia já tinha enfraquecido, a ponto de não se tornar ameaça para os seus opositores; contudo, tal não implicou a inexistência dos seus partidários, que continuaram a ser em grande número apesar de exilados, na sua maior parte. Com a morte de Luís XIV e a subida ao trono de Filipe de Orleães, o Jansenismo conheceu por breve espaço de tempo dias mais favoráveis, tendo sido por esta altura (c. de 1723) que se lançaram as fundações da Igreja jansenista holandesa, devido à nomeação de um arcebispo por parte de um bispo francês, nomeação esta que não foi reconhecida pelo Papa. Em 1713 Clemente XI emitiu a bula "Unigenitus", um dos maiores golpes no Jansenismo pela condenação das 101 preposições elaboradas por Pasquier de Quesnel, que era então a personalidade que se encontrava à cabeça do dito movimento. O Jansenismo conheceu, no entanto, uma difusão considerável e estendeu-se a países como a Áustria, a Itália, a Espanha e os Países Baixos.
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