Jean Rouch

Cineasta e etnólogo francês, Jean Rouch nasceu a 31 de maio de 1917, em Paris, França.
Formado em Engenharia Civil pela École des Ponts et Chaussées, partiu para África, em 1941, para a construção de pontes nas colónias francesas. Em missões de estudo de engenharia, viajou pelo Senegal, Mali, Níger, Gana, tendo-se apaixonado pela etnologia. Incitado por Théodore Monod, que dirigia, na altura, o Instituto Francês de África Negra (em Dakar), Jean Rouch, discípulo de Marcel Griaule (1898-1958, pioneiro da etnografia em África), começou a fotografar (perto de 20 000 negativos, posteriormente doados ao Museu do Homem, em Paris) e a filmar, no final dos anos 40, o quotidiano dos Africanos, as suas danças, costumes, rituais.
Depois de algumas curtas-metragens, o cineasta filmou, em 1955, Les Maîtres Fous (Os Loucos Senhores), um filme chocante pelas cenas de possessão de um ritual vudu, que ganhou o 1.º Prémio do Festival Internacional de Veneza, em 1957. Dois anos depois, recebeu o Prémio Louis-Delluc pelo filme Moi, un Noir (Eu, um Negro), realizado em 1958, e que Jean-Luc Godard considerou como o "melhor filme francês desde o movimento liberal". Esta obra cinematográfica retrata o quotidiano de dois trabalhadores na capital da Costa do Marfim, Abidjan. Em 1961, filmou com Edgar Morin Chronique d' un été (Crónica de um verão), no qual empregou novas técnicas cinematográficas, como a câmara de mão e a gravação do som direto, que permitiam que os interessados exprimissem, com total liberdade, os seus pensamentos e reflexões. Este filme, que analisa o comportamento e as ideias dos moradores de Paris, utilizou este novo método de documentário que Rouch considerava ser o "cinéma-verité" (cinema-verdade). Os dois cineastas condensaram, neste filme, várias influências cinematográficas, como os dos realizadores Vertov, Ivens, Flaherty, o do neorrealismo italiano e o recente movimento Nova Vaga (Nouvelle Vague). O famoso filme Cocorico, Monsieur Poulet (1974, Cocorocó, Senhor Frango) é também conhecido como pertencente ao "cinema-verdade".
Em 1975, Jean Rouch deslocou-se ao Porto (Portugal) a convite do diretor do Instituto Francês do Porto, Jacques d' Arthuys. Juntos criaram ateliers Super-8, o popular formato de gravação em 8mm, utilizado nas escolas de cinema que teve a participação dos estudantes do Instituto. Esses ateliers foram uma das bases do importante Atelier Varan, escola de documentário e de cinema direto, ainda hoje em atividade, em Paris.
Amigo de Manoel de Oliveira, Jean Rouch apadrinhou, em 1989, o doutoramento Honoris Causa do realizador português pela Faculdade de Arquitetura do Porto. Demonstrando a sua amizade por Oliveira, Rouch realizou com ele, em 1996, En une Poignée de Mains Amies (Num Aperto de Mãos Amigas), uma curta metragem rodada na cidade portuense sobre um poema do próprio Oliveira, onde se observa os dois cineastas a passear por vários locais do Porto.
Durante os 50 anos de carreira, Jean Rouch realizou perto de 120 filmes, dos quais se destacam La Pyramide Humaine (1961, A Pirâmide Humana), Petit à Petit (1971, Pouco a Pouco), Liberté, égalité, fraternité, et puis après... (1990, Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Depois...) e o seu último filme Le Rêve plus fort que la mort (2002, O Sonho Mais Forte que a Morte). Alguns dos seus trabalhos tornaram-se verdadeiras obras-primas da antropologia visual.
Jean Rouch exerceu o cargo de Diretor de Investigação no Centro Nacional de Investigação Científica (CNRS), foi fundador, juntamente com Leroi-Gouham, do Comité do Filme Etnográfico, no Museu do Homem (Paris), que tinha por objetivo divulgar filmes etnográficos, promover o debate e a análise desses filmes e preservá-los num centro, e presidiu ainda à Cinemateca Francesa entre 1987 e 1991.
Jean Rouch faleceu a 18 de fevereiro de 2004, num acidente de viação, perto de Konni, no Norte de Níger.
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