João Antunes

Arquiteto português nascido a 30 de setembro de 1643, em Lisboa, e falecido a 25 de novembro de 1712, na mesma cidade.
A sua atividade inicia-se cerca de 1681 e é um dos mais importantes arquitetos do século XVII e inícios do XVIII. Discípulo do padre Francisco Tinoco da Silva, frequenta em 1683 a escola dos Paços da Ribeira de Filipe Terzi. Superintendente de obras de pedraria e carpintaria, ocupa cargos que só alguns podiam ambicionar: arquiteto das Ordens Militares a partir de 1697, sucedendo a Mateus de Couto; arquiteto régio desde 1699, nas obras dos Paços da Ribeira, por morte de Francisco Tinoco; e arquiteto da Casa da Rainha.
A partir de 1690 até à data da sua morte trabalha nas obras da Igreja de Santa Engrácia, iniciada em 1682 por João Nunes Tinoco, tendo ficado inacabada até 1966, data em que finalmente é executada uma cúpula, atual Panteão Nacional. João Antunes havia já vencido o concurso para o plano da mesma em 1681; no entanto, é João Nunes Tinoco que avança inicialmente, tendo os seus planos sido preteridos em favor dos mais inovadores de João Antunes. De entre as obras que traça e/ou acompanha, em parte ou na totalidade, incluindo igrejas, palácios, casas, retábulos e um túmulo, destaque-se ainda a Igreja do Bom Jesus da Cruz, Barcelos (1701-1705). João Antunes labora num período de transição, entre a austeridade e contenção do período pós-Restauração, e na tradição seiscentista dos arquitetos formados na Aula do Paço; e no advento de uma conjuntura económica favorável, aberta à inovação e à importação de modelos, que caracteriza o período joanino e o apogeu do Barroco em Portugal.
Os contactos entre a corte de Lisboa e o Vaticano, bem como as relações com príncipes e artistas italianos, atestam o conhecimento do curso da arquitetura barroca em Itália; no entanto, esse manancial foi diminutamente utilizado na arquitetura seiscentista em Portugal. Santa Engrácia é, aliás, a obra emblemática do início do nosso Barroco.
De entre as características particulares a cada uma das obras, quer pela dimensão quer pela representatividade de cada uma delas, três questões fundamentais da arquitetura têm uma abordagem comum e característica do Barroco, tanto em Santa Engrácia como no Bom Jesus da Cruz. A saber: a planta em cruz grega, sem tradição em Portugal (que difere da cruz latina por ter os braços de igual dimensão ao invés desta última, em que um domina), contando-se uns quantos exemplos isolados, experimentais e sem consequência; a verticalidade do espaço, enfatizado pelas tribunas que circundam o espaço central, numa tensão permanente entre compressão e descompressão, acentuada esta última pela concavidade da cúpula central; e finalmente uma questão menos do foro arquitetónico, mas sobretudo do âmbito do território e da ênfase topográfica e espacial, preocupação barroca, cujo melhor exemplo em Portugal é provavelmente a Torre e Igreja dos Clérigos, Porto (1736-1763, aproximadamente), do arquiteto italiano Nicolau Nasoni. Assim, também Santa Engrácia se coloca num ponto estratégico, no topo de uma colina cujo perfil converge rapidamente na direção do rio; e o Bom Jesus da Cruz, constituindo a centralidade da época moderna em Barcelos, articula uma série de espaços e tenção de direções, como se do seu epicentro se tratasse.
De referir ainda em Santa Engrácia a inusitada articulação dos quatro torreões, retilíneos, por meio de paredes ondulantes de convexos e côncavos, influência do barroco romano de Borromini e Bernini. A Igreja do Bom Jesus da Cruz apresenta um estilo mais austero, na continuidade dos inícios de seiscentos, relacionando-a mais com a serra do Pilar do que com os modelos italianos. Apresenta ainda um registo volumétrico mais cilíndrico do que Santa Engrácia, de leitura mais cúbica, pelo facto desta última combinar a cruz grega com os já referidos quatro torreões.

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