João Carlos (J. C.)

Em A Paixão, João Carlos, ainda jovem, descendente de uma família alentejana em decadência, estuda Direito em Coimbra e vai concentrando nele todos os semas que no romance remetem para a consciencialização de uma missão de renovação social: é assim que, na terceira parte do romance, João Carlos abandona a casa para se libertar, "assumir uma atitude nova, a única aceitável, para ele, perante a vida, ingressar inteiramente e sem cadeias noutra mentalidade, [...] ajudar com os seus pulsos a construir o mundo" (Trilogia Lusitana, Lisboa, INCM, 1982, p. 170). Este perfil é completado no capítulo inicial de Cortes, onde, sob o nome abreviado de J. C. (com o que impõe de significação simbólico-religiosa na construção desta personagem), é revelada uma faceta de escritor, tomado desde a adolescência pelo "inédito prazer de escrevinhar, ludicamente, para si, entregue a essa 'finalidade sem fim' inexplicável" (ibi., p. 154). Ainda no segundo volume da trilogia, J. C., agora em Lisboa, enceta uma relação amorosa com Marta, e começa a questionar-se sobre a possibilidade de transformação de uma pátria onde se sente exilado, com o sentimento permanente de "Ter tomado o comboio errado, em descensão há séculos, apodrecido por dentro, por fora velho cagado, arrumado em ramal fechado, atacado de demência do passado, mantido em vida por estremo artifício, [que] tresanda a bafio, a morte, a melancolia inglória." (ibi., p. 251). No último volume da trilogia, Lusitânia, J. C., envolvido numa aventura rocambolesca mercê da qual passa do "exílio no reino" ao "reino do exílio", apreende a partir de Veneza a notícia da morte do pai e do fim da ditadura, e sente, pela primeira vez, que o corte com um mundo familiar e histórico-social asfixiante se consome. O "desdichado, o tenebroso, ausente nos momentos-chave, o que esqueceu a chave, se a há" (ibi., p. 302), acaba por ceder à pressão familiar e volta ao Alentejo, para, "sem fé, esperança ou qualquer caridade", ser testemunha de um "tempo de gente cortada, enganada, nas mãos de políticos que comem a carne e deixam os ossos" (ibi., p. 335). O "náufrago do barco cada vez mais encalhado [...( quase resignado ao desastre", o "dantes cavaleiro andante, agora sedentário-sedento", relata, então, nas suas cartas à amada Marta (que por opção permanece em Itália) as peripécias da Revolução, testemunha pessimista e cética do "show da máquina social posta a andar ou desandar após meio século de sono profundo". Em Cavaleiro Andante, João Carlos, dedicando-se à poesia, ingressa como comissário de bordo na companhia aérea nacional. Numa fuga contínua que o fará errar de país em país, numa espécie de "compromisso entre exílio e país", "desordenada demanda de um talvez falso fim" (Cavaleiro Andante, Lisboa, INCM, 1983, p. 197), compreende, agora, que "Quem permanecer parado numa pátria, em sentido real ou figurado, talvez nunca chegue a nada" e que "A demanda do sonho milenário traz em si o melhor das revoluções" (ibi., p. 58).
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