João Roiz de Sá

Fidalgo palaciano que serviu em Azamor, poeta e tradutor, coligido no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, viveu entre os séculos XV e XVI. Uma das suas composições apresenta a singularidade de se inspirar na heráldica, descrevendo os escudos das armas de algumas linhagens nobres, entre as quais se inclui a dos próprios Sás "cada û de grão primor, / forte, leal, sem temor, / em combates e galés". Mas o grande interesse de que se reveste este autor reside na tradução de várias epístolas das Heroides de Ovídio e do epitáfio de Tíbulo, no que nos revela, num contexto de emergência do Humanismo, de um gosto crescente pela cultura clássica. A versão de duas dessas epístolas, a de Penélope a Ulisses e a de Laodomia a Protesilao, endereçadas por duas esposas saudosas a seus maridos ausentes, além de documentar este renascimento da literatura e cultura greco-latinas, terá sido tanto mais pertinente porquanto tinha por destinatário um público cortesão empenhado na expansão e conhecedor, por isso, da dor da separação, da ansiedade e inquietação vividas pelos familiares afastados. Numa análise psicológica que decompõe, na primeira pessoa, todos os cambiantes dos sentimentos provocados pela ausência - o receio, o ciúme, a angústia pela passagem do tempo, a devoção, a ausência de sentido da vida - estas epístolas acabam por assumir, no feminino, uma postura anti-heroica: "Desditosa e desastrada / será quem primeiramente / caa for viuva chamada? / Os deoses façam qu'en nada / te queiras mostrar valente!" (Epístola de Laodomia a Pro- / tesilao...). A produção poética deste autor inclui ainda a participação em composições conjuntas de teor jocoso e/ou amoroso, com Garcia de Resende, o Conde Vimioso, Jorge da Silveira, Aires Teles, Simão de Sousa, Simão Miranda, Diogo Brandão, Fernão Brandão, e, até, com D. Pedro.
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