John Wicliff

Líder religioso reformista inglês nascido cerca de 1320 ou 1333, em Hipswell, no Yorkshire, e falecido em 1384, em Lutterworth, Inglaterra. Pensador racional e acutilante, deu um grande contributo para que a Bíblia fosse traduzida para a língua "inglesa" de então, para além de ter advogado ideias heréticas e contrárias à hierarquia da Igreja. Anti-clericalista, criticou o papado e o clero do seu tempo, alinhando também no partido dos revoltosos contra os senhores.
Intelectualmente dotado, estudou em Oxford, onde se doutorou em 1372 e ensinou até 1381. Foi depois conselheiro eclesiástico da monarquia inglesa, onde trabalhou para o Príncipe Negro e para seu irmão, John de Gaunt, duque de Lancaster e filho de Eduardo III. Nessa altura estudou e escreveu bastante, advogando que o poder imana de Deus e só é legítimo naqueles que estiverem em estado de graça, o que fazia com que presbíteros e bispos pecadores devessem ficar sem os seus bens e poderes pelo poder temporal. Chegou a ter que clarificar estas suas ideias na igreja de S. Paulo em Londres, no ano de 1377, sendo salvo de condenação por John de Gaunt, mas não deixou de ver algumas das suas teses condenadas expressamente pelo papa Gregório XI nesse mesmo ano de 1377.
Tornou-se com o tempo cada vez mais avesso à subordinação da Igreja inglesa à Cúria Romana, à qual se tornou hostil e bastante crítico. Criticava principalmente a ingerência papal no mundo temporal e primazia e suserania da autoridade de Roma sobre as autoridades civis. Combateu também as indulgências, a hierarquia e prefigurou-se de forma radical entre os mais acérrimos anti-clericalistas do seu tempo. Bem antes de Lutero defendeu o primado das Escrituras - e exclusividade - como fonte de fé e modelo da vida cristã. Reagiu também inúmeras vezes, com um realismo filosófico exagerado, contra a doutrina tradicional da Eucaristia, negando a Transsubstanciação, acendendo polémicas entre o clero inglês. Em 1382 o arcebispo de Cantuária, William Courtenay, constrangeu a Universidade de Oxford a condenar igualmente John Wicliff, mas este já não lecionava ali, estando já na sua paróquia de Lutterworth. Urbano VI convocou-o ainda a Roma, mas uma doença súbita impediu-o de ir a Itália responder perante aquele papa. Como Lutero, a princípio quis retratar-se perante o papa e submeter-se à Igreja, mas depois renegou essa vassalagem e defendeu as suas ideias críticas, de forma "fundamentalista" e dura.
Muitos o seguiram e advogaram as suas ideias, entre os quais inúmeros clérigos, os mais pobres da Igreja inglesa (lollards), que rumavam aos campos a pregar os ideais evangélicos e anticlericalistas de Wicliff. O século XIV foi o século dos levantamentos populares por excelência na Idade Média, que na Inglaterra tiveram uma expressão mais rural. O mais famoso desses movimentos agrários foi encabeçado por Wat Tyler, em 1381. Wicliff alinhou com estes (pelo menos em termos de anti-clericalismo), o que levantou suspeitas e perseguições por parte da monarquia inglesa e do poder eclesiástico do país. Assim, foi obrigado a retirar-se para a sua paróquia de sempre, Lutterworth, onde viria a falecer em 1384, vítima de um ataque enquanto assistia à Missa. Wicliff defendeu sempre a tradução da Bíblia para a língua vulgar, de forma a ser entendida e lida, eventualmente, por todos. Os seus escritos foram condenados e queimados pelo concílio de Constança, em 1415 e o seu cadáver exumado e destruído em 1428, anos depois da ordem de Martinho V nesse sentido.
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