Juliano, o Apóstata

Flávio Cláudio Juliano nasceu em Constantinopla em 331 ou 332. Foi o último imperador pagão. Era sobrinho de Constantino, pois seu pai, Júlio Constâncio, era meio-irmão deste. Sua mãe chamava-se Basilina, a qual morreu pouco depois do seu nascimento. Depois da morte de Constantino em maio de 337, o pai de Juliano e muitos outros parentes foram vítimas de um massacre em Constantinopla desencadeado por Constâncio II. Juliano e o seu meio-irmão Galo apenas foram poupados devido à sua tenra idade. Juliano cresceu por isso na sombra, vítima das contínuas suspeitas do imperador Constâncio II, para o qual todos eram seus potenciais inimigos. Durante seis anos (342-348?), Juliano e Galo viveram encerrados numa villa em Macellum, na Capadócia.
Aí recebeu Juliano uma severa educação cristã, tendo sido até ordenado leitor (de Sagradas Escrituras). No entanto, continuou a ler apaixonadamente os autores clássicos pagãos, que sempre o fascinaram mais. Mais tarde, por volta de 350 (?), encontramo-lo em Constantinopla e Nicomédia a estudar junto de filósofos neoplatónicos, como Máximo de Éfeso, que esteve por trás da sua conversão a uma forma mística de paganismo associada a magia. Durante mais ou menos 10 anos, Juliano ocultou esta sua conversão.
Em fins de 355, depois de ulteriores estudos em Atenas, foi chamado por Constâncio a Milão, que aí o nomeou César a 6 de novembro. Desposou ainda a irmã de Constâncio, Helena, e foi por ele enviado para a Gália para suster as invasões de Francos e Alamanos que então se registavam na província. Contra estes povos invasores andou vários anos ocupado em sucessivas campanhas. Estas foram coroadas por uma retumbante vitória sobre os Alamanos em 357, perto da atual Estrasburgo, restabelecendo assim a linha fronteiriça do Reno. Em 360 começaram os problemas entre Constâncio e Juliano. Assim, nesse ano, depois dos esforços de Juliano no Reno, Constâncio decidiu retirar as melhores tropas da região e deslocá-las para o oriente, para a campanha contra os Persas. O descontentamento entre os militares foi grande: começada a marcha dos contingentes para o Oriente, ainda na Gália, nas imediações de Lutécia (Paris), as tropas amotinaram-se e trataram de aclamar Juliano como Augusto, que se encontrava a passar o inverno naquela cidade. Constâncio, naturalmente, recusou tal aclamação, o que fez com que Juliano contra ele marchasse em 361, quando o imperador estava no Oriente. Constâncio, então em Antioquia, decide contra-atacar Juliano, mas acaba por morrer em Tarso, vítima de febre. Juliano não precisara de combater. Entrou como Augusto em Constantinopla em dezembro de 361, e logo aí impôs um programa de reformas e purgas. Nomeou comissões para o efeito, como a de Calcedónia, que se desembaraçou dos funcionários de Constâncio mais odiados e de outros administradores menos apreciados, como Úrsulo. Uma das primeiras medidas de Juliano foi a proclamação de liberdade de culto para cristãos e pagãos, reabilitando também o clero que estava no exílio. Reduziu ainda de forma drástica o pessoal do palácio imperial e dos ofícios palatinos, como os agentes in rebus e os protetores (ambos quase uma polícia secreta) ou até secretários. Diminuiu alguns impostos e taxas e os retroativos dos débitos ao tesouro; por outro lado, reforçou o controlo imperial das finanças públicas. As cidades e os seus conselhos municipais, que estavam num marasmo em termos de desenvolvimento, beneficiaram também de várias reformas. Nos meios urbanos e nos seus cidadãos residia, para Juliano, a base social de apoio à restauração do paganismo que pretendia realizar no Império. Nos templos reabertos e restaurados, surgiu uma casta sacerdotal, que se organizava em províncias à frente de cada uma das quais estava um superior hierárquico, que dependia de um pontífice máximo, ou seja, o Imperador.
Juliano, homem inteligente de formação erudita, redigiu um Hino ao Rei Sol, bem como um conjunto de escritos vários que constituiriam uma teologia pagã unificada, fundada sobre um monoteísmo neoplatónico e solar. Na sua religião helenística, acolheu toda a cultura grega pagã e, tentando restituir à literatura pagã o seu conteúdo religioso, proibiu os professores cristãos de a ensinarem. Muitos foram os cristãos que se indignaram com esta medida, entre os quais o famoso S. Gregório de Nazianzeno, um dos maiores téologos cristãos do seu tempo. O exército também entrou nesta reforma religiosa de Juliano: com efeito, foi aliciado com banquetes sacrificiais e donativos, para além de ser encorajado a oferecer incenso nos dias de soldo. Assistiu-se também a uma promoção e favorecimento dos pagãos, mas proibiu-se e condenou-se qualquer ação contra os cristãos, como os linchamentos, evitando-se novos mártires. Todavia, Juliano não evitou perseguições e atacou duramente o cristianismo, como na sua obra Contra os Galileus.
Em 362-363 esteve estacionado com as suas legiões em Antioquia, preparando uma grande expedição contra a Pérsia. No entanto, uma penúria de alimentos, provocada pela seca e agravada pela presença do exército, aumentou ainda mais pela tentativa de Juliano de importar trigo, fixando preços proibitivos. O imperador e o conselho municipal ficaram em má situação, que piorou ainda mais com o incêndio do templo de Dafne e com a impossibilidade de se celebrar a festividade de Apolo, ainda que a população fosse maioritariamente cristã. A austeridade e o desprezo ostentados por Juliano em relação aos prazeres populares do teatro e das corridas de cavalo irritaram ainda mais a plebe cristã. Homem de erudição e inteligência viva, Juliano respondeu aos insultos do povo com a publicação do Misopogone, uma defesa satírica da sua obra feita em que, depois de ter zombado de si próprio, condenou o povo de Antioquia.
A expedição contra os Persas, entretanto, conheceu sucessos no início, com as numerosas forças romanas a marcharem ao longo do Eufrates e a atravessarem o Tigre. Várias foram as fortalezas e cidades conquistadas e vencida uma batalha junto a Ctesifonte, na Mesopotâmia. A cidade, porém, não foi expugnada e os Romanos foram constrangidos a retirarem-se para o Tigre, para uma zona a montante de Ctesifonte. Aí, foi Juliano ferido de morte. Joviano fez então a paz com os Persas e tratou de levar o corpo do imperador para Tarso, na Ásia Menor.
Juliano foi um elegante e refinado escritor em língua grega e as suas obras constituem uma riquíssima fonte de informações sobre o imperador e sobre a história do Império no seu tempo. Para além dos títulos já mencionados, escreveu ainda panegíricos, cartas e uma sátira sobre os imperadores que o precederam (Convivium ou Caesares). De espiritualidade severa e fanatizada, de grande inteligência, idealismo e energia, era um pagão místico, um romântico aos olhos da posteridade, principalmente devido ao facto de ter sido um revivalista das glórias pré-cristãs do passado de Roma.
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