Artigos de apoio

Latrão IV
Décimo segundo concílio ecuménico, reunido no palácio papal em Roma, no ano de 1215. Foi convocado e vigorosamente dirigido pelo mais determinado e poderoso papa da Idade Média: Inocêncio III (1198-1216), iminente canonista e prelado de pulso. Realizaram-se três sessões, que se dividiram em 70 capítulos (ou decretos), o que atesta o volume de trabalhos e a copiosa produção decretal e as posições que advieram deste conclave. Curiosamente, foi um dos mais curtos concílios da Igreja, mas registou a participação de cerca de 500 bispos, 800 abades e prelados de ordens religiosas, além de vários dignitários, embaixadores e convidados. Para muitos, foi a maior e mais imponente exibição do poder do Ocidente cristão e representa o apogeu do poder papal, com base na grandiosidade da figura de Inocêncio III. Estava-se, em boa verdade, no auge da vida eclesiástica medieval. Foi também o mais importante dos concílios lateranenses, congregando vários representantes da Igreja oriental, nomeadamente dois patriarcas (Constantinopla, Jerusalém) e 71 primazes e metropolitas. Vários foram os reis europeus que preferiram enviar embaixadores a estarem presentes, dada a multidão de participantes no conclave, no qual esteve presente S. Domingos de Gusmão.
Foi convocado em 19 de abril de 1213 mas só arrancou em 1215. Os motivos da sua convocatória foram:
- recuperação da Terra Santa
- reforma dos costumes da Igreja
- extinção das guerras entre estados cristãos
- fim das heresias
- afirmação da fé
- restabelecimento da paz universal.
Essencialmente, este concílio resultou na tomada de várias posições importantes para o reforço do papel da Cristandade e para a sua reforma, em questões de costumes, usos, moralidade, vivência de fé e atitude perante os desvios e os comportamentos religiosos dúbios, já que as heresias, os movimentos apocalíptico-milenaristas e pauperísticos pululavam na Cristandade, num tempo de grande espiritualidade dos povos. Em nome da fé e da moral, Inocêncio III conduziu este concílio, do qual resultariam as seguintes posições:
- condenação das heresias dos Cátaros e dos Valdenses (de Pedro Valdo), organizando uma cruzada contra os primeiros, que se traduziria num massacre e na aniquilação de populações inteiras no sul de França
- revisão e imposição da legislação eclesiástica matrimonial
- obrigação de confissão anual e de comunhão pascal, além de se regular as práticas penitenciais
- definições teológicas sobre a Trindade, da Criação, de Cristo Redentor, dos Sacramentos
- transsubstanciação eucarística na consagração
- encorajamento do ideal de cruzada, que se concretizaria entre 1215/17 e 1221, no Egito, mas redundando num malogro humilhante dos Cristãos
A cruzada foi um dos pontos fortes deste concílio, mas a sobreposição de ambições políticas e territoriais de alguns dos soberanos europeus desvirtuou o projeto de Inocêncio III. Este papa revelou-se ainda disciplinador e preocupado com a anarquização da vida interna e dos costumes da Igreja. Por isso, proibiu o aparecimento de novas ordens religiosas, embora tenha tido a perceção do valor do projeto espiritual dos Franciscanos, apoiando a continuidade desta fraternidade. Latrão IV condenou ainda os erros teológicos e doutrinais do abade Joaquim de Flora, cujos ensinamentos incendiavam então a Europa, eivados de ideias milenaristas e pauperísticas, a roçar a heresia. Foi neste concílio que se aprovou também a distinção social dos Judeus, que deveriam usar uma estrela de David e a cor amarela a identificá-los, o que se viria a tornar pernicioso para a ordem e paz na sociedade, além de outras repercussões graves no futuro.
Este concílio ficou pois marcado pela ação e pela figura de Inocêncio III, pela condenação e perseguição aos Cátaros e aos Valdenses, pelas medidas reformadoras e de zelo da Igreja e da vida cristã.
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