Artigos de apoio

literatura de viagens
O interesse que tem recebido o domínio da literatura de viagens na mais recente investigação universitária parte do princípio de que os textos que descrevem experiências de viagem são, enquanto discurso sobre o estrangeiro, nas áreas de literatura comparada, de história da cultura e de história das mentalidades, um instrumento de estudo da imagem cultural do "outro", o país visitado, e, ao mesmo tempo, constroem, pelo ponto de vista adotado, uma imagem cultural do país natural do viajante. A tradição portuguesa da literatura de viagens conheceu, com as viagens oceânicas do século XVI, um florescimento que decorria da necessidade de testemunhar as descobertas efetuadas, coincidindo, neste caso, muitas vezes, o registo com o próprio relato do navegador (caso da Carta do Achamento do Brasil, por Pero Vaz de Caminha, ou do Diário da Viagem de Vasco da Gama, por Álvaro Velho), e, ao mesmo tempo, do desejo de apresentar ao leitor civilizado o exotismo da flora e faunas encontradas, os usos e costumes de povos ainda selvagens. Ao longo do século XVI, a literatura dará voz quer à vertente trágica e picaresca da diáspora portuguesa (cf. História Trágico-Marítima; Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto) quer à sua glorificação épica em Os Lusíadas quer ainda à componente de evangelização que rege os relatos de missionários jesuítas pelos caminhos do Brasil e da Ásia. No século XIX, a literatura de viagens, não descurando o fascínio pelo espaço exótico que caracterizou a literatura romântica, orienta-se privilegiadamente para o espaço civilizado europeu, reflexo tanto da aspiração cosmopolita manifestada pela Geração de 70 (cf. A Holanda, de Ramalho Ortigão), como do desenvolvimento da imprensa e da multiplicação, pela mão de correspondentes, de relatos sobre outros países. No século XX, a proliferação da literatura de viagens acompanha, em narrativas de pendor realista, os caminhos penosos da emigração portuguesa (cf. Ferreira de Castro, Joaquim Paço d'Arcos, José Rodrigues Miguéis), nas suas sucessivas vagas, e os da viagem no espaço colonial português (cf. obra poética de Rui Cinatti), muitas das vezes coincidindo com uma descida aos infernos, nos casos de memória da guerra colonial. Ao mesmo tempo, o conceito de viagem tende cada vez mais a assumir, na novelística contemporânea, em autores como José Saramago ou Maria Gabriela Llansol, as possibilidades simultâneas de viagem no espaço real conjugadas com as viagens no espaço metafísico do ser, com as viagens temporais para outros espaços históricos e da memória pessoal coletiva e literária.
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