Lusitânia

Lusitânia é a designação de uma das três províncias romanas da Península Ibérica, que compreendia também a Tarraconense e a Bética. Recebeu o nome do principal grupo étnico que aí vivia, os lusitani, povo muito pouco conhecido (há algumas menções dispersas entre várias obras clássicas - descrições geográficas ou de viagens - e epígrafes do período romano, para além de inscrições latinas, supostamente da autoria dos Lusitanos). Estrabão, autor latino, deles faz notícia, afirmando mesmo que habitavam a norte do Douro também. Plínio, outro autor romano, também descreveu a Lusitânia, como o fez o viajante grego Ptolomeu, nos seus Itinerários. Esta região, porém, tem uma abrangência geográfica e civilizacional que vai para além dos Lusitanos.
Assim, a Lusitânia deriva de uma reorganização administrativa (e militar) do Império Romano levada a cabo por Augusto César em 29 a. C.: compreendia a parte ocidental da Península, do Rio Douro ao Algarve, passando pelas áreas espanholas da Extremadura (região de Cáceres), Salamanca, Toledo e Mérida (capital da província), coincidindo na sua maior parte com o território português atual. A Lusitânia romana dividia-se em três circunscrições jurídicas (conventos): Emerita Augusta (Mérida), Scalabis (Santarém) e Pax Julia (Beja), localidade onde se estabeleciam os governadores, a administração e a justiça. Como as demais províncias romanas, a Lusitânia dividia-se em vários populi ou povoados (Plínio terá contado perto de meia centena), uns sujeitos ao direito romano, outros ao antigo direito do Lácio (o Império conhecia vários tipos de textos legais, embora predominasse o de Roma). Alguns desses populi deram origem a atuais localidades portuguesas: além dos dois conventos atrás mencionados de Scalabis e Pax Julia, Miróbriga (Alcácer do Sal), Ebora (Évora), Myrtilis (Mértola) e Aeminium (Coimbra) são alguns dos mais conhecidos. Muitos vestígios arqueológicos dessas povoações (citânias, oppidae, castros, quando eram fortificadas ou eram povoações indígenas romanizadas) ainda estão por identificar e estudar. Para além destas marcas de civilização, encontram-se também estradas e vias militares romanas, bem como cerâmica, moedas, mosaicos, villas (casas senhoriais romanas) e lápides com inscrições.
Desde sempre, esta região conheceu uma série de visitantes estrangeiros, todos de passagem ou em prospeção, à exceção dos Celtas, que ali fixaram povoados. Fenícios, Cartagineses e Gregos contam-se entre os que procuraram as suas riquezas, cuja fama e valor despertou, mais tarde, a cobiça da loba romana. Prata, estanho, chumbo e ouro contavam-se entre as riquezas mais apetecidas, bem como uvas, vinhos, frutos e cavalos.
Sobre os Lusitanos, como atrás se realçou, pouco se sabe. Provavelmente, resultam da miscigenação entre Iberos, povo peninsular, e Celtas, oriundo da Europa Central e que aqui teriam chegado a partir do ano 1000 a. C. Os Romanos, quando empreenderam a conquista do ocidente peninsular, encontraram uma série de povos alcandorados nos seus castros no cimo de elevações de terreno, com um tipo de vida tribalizado, com pouca unidade entre os seus povoados, quase sempre em guerra entre si, o que atesta a sua provável herança céltica. Nunca constituíram, esse conjunto de povos denominados Lusitanos, uma unidade político-administrativa, primando pelo isolamento e a inacessibilidade, para além de contactos culturais muito ténues ou inexistentes. Em termos de sociabilidade, o seu modo de vida e os locais escolhidos para habitar determinariam provavelmente esse carácter fechado. As suas manifestações culturais são quase desconhecidas, escondendo os seus traços civilizacionais, conhecendo-se apenas um pouco do seu instinto belicoso (pilhagens ocasionais na Bética) e da sua resistência tenaz aos Romanos. A sua figura mais conhecida, Viriato, representa todo esse espírito e forma de vida lusitana, da cultura guerreira, da emboscada, da bravura enfim. À frente do seu povo a partir de 147 a. C. - ou de algumas tribos unidas -, enfrentou durante anos, prolongando a resistência anterior, as legiões romanas: apenas a traição de três dos seus companheiros, que o mataram em 139 a. C., abriu caminho à romanização dos Montes Hermínios (Serra da Estrela) e a pacificação da Lusitânia, só conseguida plenamente, aliás, cerca de 19 a. C. A campanha de extermínio lançada pelos Romanos entre 138 e 137 a. C. terá em muito contribuído para o enfraquecimento e para o apagar da chama lusitana, embrenhando a memória deste povo na noite dos tempos. Com a queda de Roma perdeu-se a denominação Lusitânia, com todo o seu sentido geográfico e político-administrativo.
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