Luzes Antes do Milénio (Séculos IX e X)

Até há bem pouco tempo, alguns historiadores descreviam o Ano Mil como uma época de grande instabilidade e terror apocalíptico, onde os homens temiam o fim do Mundo. Este quadro negro foi, no entanto, desmistificado por historiadores como Marc Bloch, Henri Focillon, Edmond Pognon, Georges Duby e Jacques le Goff.
Esta visão aterradora foi herdada, sucessivamente, pelos arqueólogos e historiadores dos séculos XVII e XVIII, que estudaram atentamente o período medieval, a então chamada "Idade das Trevas", que, porém, começou a ser clarificado com os autores de tradição iluminista. Este modelo interpretativo deste período da História tem a ver com a visão que os intelectuais dos séculos XVII e XVIII tinham da época que os antecedeu. Para os estudiosos dessas centúrias, o Ano Mil significava a "antítese da renascença", a era da morte e da ignorância.
O dito Ano Mil seria o milésimo ano da encarnação de Cristo, segundo os cálculos pouco rigorosos de Dionísio, o Pequeno. Quando se fala do Ano Mil dever-se-ia alargar o campo cronológico para o espaço compreendido entre 980 e 1090. Neste período, a Europa saía de uma grande depressão. Grupos de povos guerreiros oriundos do Norte, Leste e Sul, tinham sido os responsáveis pelo retrocesso verificado por comparação ao relativo desenvolvimento do império carolíngio. Foram também os responsáveis pelo facto da Europa mergulhar num mundo atrasado e selvagem, onde a cultura, nomeadamente a escrita, fora sacrificada.
À entrada no Ano Mil, a Europa Ocidental iniciou um novo período da sua História, uma era de crescimento económico e de progresso material e intelectual.
Este movimento de renovação cultural arrastou consigo o renascimento da escrita, quase esquecida, e, consequentemente, aumentou, qualitativa e quantitativamente, a produção de fontes históricas que nos permitem compreender melhor este estádio da Humanidade.
No século X, o mundo cristão não estava fechado sobre si mesmo. Já tinham sido desenvolvidos alguns contactos com outras realidades, embora estes fossem, sobretudo, efetuados por indivíduos a título pessoal. Mas no século XI, esses contactos multiplicaram-se, estendendo-se aos Balcãs e ao Império Bizantino. Esta abertura ao exterior resultou na expansão do Ocidente e inaugurou o início da construção do primeiro império comercial e colonial da Cristandade ocidental: Veneza.
Este período de expansão, obviamente, passou por um crescimento demográfico e por um aumento da qualidade de vida das populações.
O desenvolvimento da Cristandade, verificado por volta do Ano Mil e que se prolongou até ao século XIV, funcionou como um estímulo económico, traduzido na produção em massa de matérias-primas, no fabrico de novos utensílios, no desenvolvimento dos transportes, entre outros.
Este esforço correspondia a várias necessidades, como, por exemplo, o alojamento de populações, gerado pelo aumento demográfico. A relativa pacificação da Europa, no século X, proporcionou o desenvolvimento económico e este aumento populacional. A diminuição da insegurança expressa o desejo das sociedades cristãs protegerem e fomentarem o progresso em crescimento.
A terra é a base de todo este crescimento, uma vez que, neste período histórico, era o fator essencial, ou motor, de todo o desenvolvimento. No século X, teve início uma primeira revolução agrícola, que continuou até Duzentos. Esta desencadeou um aumento populacional, motivador de uma dupla expansão. Por um lado, motivou a conquista de fronteiras na Cristandade, e por outro, as Cruzadas.
Entre os séculos V e X, nasceram as futuras estruturas da mentalidade e da cultura da Idade Média, desenvolvendo costumes, obras e pensamentos, processo protagonizado pela Igreja e seus "agentes". A maior novidade cultural, para este período, foi o estabelecimento de relações entre as influências pagãs e os contributos cristãos. Apesar desta junção, só se atingiu uma certa homogeneidade nas classes mais instruídas das sociedades europeias.
Outro acontecimento importante, para o despertar da Europa, foi o denominado Renascimento Carolíngio, dos séculos VIII e IX, que se revelou precoce, mas não deixou de ser a primeira manifestação de um "renascimento europeu" mais profundo e conclusivo, que teria lugar entre os séculos X e XIV.
O Renascimento Carolíngio deu-se, antes de tudo, a nível político. As frutuosas campanhas militares de Carlos Magno granjearam-lhe prestígio internacional. A tal ponto que, no ano 800, o Papa sagrou-o imperador, procurando, com isso, restaurar e fazer renascer a velha ordem imperial romana. É, por isso, e também pelo brilho da sua corte de Aix-de-la-Chapelle (ou Aachen), considerado o verdadeiro criador do Ocidente medieval.
Mas não é apenas na Europa que este período é marcado por uma expansão cultural e artística. O final do século IX marca, igualmente, a idade de ouro da civilização khmer, no Sueste asiático. Num vasto território que compreende o atual Camboja, Laos, Tailândia e Vietname, a autoridade khmer, com a sua capital em Angkor, fomentou uma notável atividade artística, ilustrada na implementação de grandes estátuas, verdadeiros colossos, e monumentos religiosos. Deste período de grande vigor criativo, ficou célebre a grande pirâmide de Bakong, a mais soberba e emblemática criação arquitetónica dessa época.
No México, por sua vez, regista-se o desenvolvimento da civilização tolteca, admirável pelas suas pirâmides, metalurgia e um avançado conhecimento astronómico.
Voltando à Europa, registe-se a importância que teve neste processo a fundação, em 910, da Abadia de Cluny, pelo duque Guilherme da Aquitânia. Situada no Maconais, esta abadia exemplificou o espírito de reforma que deveria partir das ordens monásticas, procurando deter a decadência da Igreja e culturas eclesiásticas inseridas no sistema feudal. A regra de S. Bento, observada pelos monges negros beneditinos de Cluny, vai propagar-se vigorosa e rapidamente por todo o continente, funcionando como um polo irradiador de estabilidade, cultura e desenvolvimento.
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