Artigos de apoio

Madalena de Vilhena (personagem)
Na peça Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, D. Madalena de Vilhena é a primeira personagem que aparece, mas podemos afirmar que toda a família tem um relevo significativo. São as relações entre esposos, pais e filha, o criado e os seus amos ou mesmo o apoio de Frei Jorge que estão em causa. Um drama abate-se sobre esta família e enquanto Manuel de Sousa Coutinho e D. Madalena se refugiam na vida religiosa, Maria morre como vítima inocente.
D. Madalena tinha dezassete anos quando D. João de Portugal desapareceu na batalha de Alcácer Quibir. Durante sete anos procurou-o. Há catorze anos que vive com Manuel de Sousa Coutinho. Mulher bela, de carácter nobre, vive uma felicidade efémera, pressentindo a desventura e a tragédia do seu amor. Racionalmente, não acredita no mito sebastianista que lhe pode trazer D. João de Portugal, mas teme a possibilidade da sua vinda. É com medo que a encontramos a refletir sobre os versos de Camões e a sentir, como que em pesadelo, a ideia de que a sobrevivência de D. João destrua a felicidade da sua família. No imaginário de D. Madalena, a apreensão torna-se pressentimento, dor e angústia. É neste terror que se vê na necessidade de voltar para a habitação onde com ele viveu.
D. João de Portugal não chegou a ser amado por Madalena; a sua figura aparece mais como a de um protetor ("bom e generoso"). Manuel é que surge como o amante; é a este que Madalena se dedica de alma e coração. No entanto, Madalena manteve-se fisicamente fiel ao seu primeiro marido, pelo constrangimento social a que estava sujeita uma mulher da sua linhagem. De notar que "Madalena" evoca a figura bíblica da pecadora com o mesmo nome. Ao longo da peça, vive profundamente angustiada com a fraqueza de Maria, manifestando preocupação com o crescimento, com as tendências e com as crenças sebásticas da filha.
D. Madalena, hesitante, perturbada e agitada, é uma personagem comandada pelo coração (comportamento próprio do herói romântico), que valoriza a perspetiva individual e pessoal, que exagera as consequências previsíveis da decisão tomada e que, obcecada pelo passado, teme o presente e vive aterrorizada com o futuro.
No primeiro ato, D. Madalena nega a crença de Telmo em agouros ("D. João ficou naquela batalha... com a flor da nossa gente" - ato I cena II), procurando assumir uma racionalidade que é mais aparente que real, porque – como estas palavras de Maria demonstram: "agora não lhe sai da cabeça que a perda do retrato é prognóstico fatal de outra perda maior..." – também ela sucumbe à crença nos agouros.
Como referenciar: Madalena de Vilhena (personagem) in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-12-17 10:09:56]. Disponível na Internet: