Manuscritos Iluminados

A palavra iluminar provém do latim illuminare e significa não só dar claridade como ornar, enriquecer. Assim aconteceu com manuscritos feitos em quase todas as épocas da História e nos mais diversos pontos do globo, começando a decair esta manufatura com o surgimento da imprensa no Ocidente. A época áurea dos manuscritos iluminados no Ocidente foi a Idade Média, devido à atividade dos mosteiros, que continham na sua maioria um scriptorium ("sítio de escrever") onde os monges copiavam à mão as mais diversas obras e iluminavam os manuscritos segundo a sua inspiração artística (como é relatado, por exemplo, na obra O Nome da Rosa, de Umberto Eco). As capitulares, ou primeiras letras de cada página, foram dos elementos que mais se prestaram à criatividade artística do copista iluminador, sendo extremamente ricas em cores, formas (que vão das zoomórficas às vegetais e mesmo humanas) e que podem inclusivamente conter cenas diversas (dizendo-se que são "historiadas"). Outro elemento compositivo muito valorizado eram as orlas ou bordaduras, que proporcionavam um espaço razoável para a ornamentação. A escolha da decoração dependeu também das zonas geográficas, pois enquanto que manuscritos judaicos mostram preferência pelas figuras, os que foram efetuados em zonas de influência muçulmana (Espanha, Pérsia, Egito...) tendem para a decoração abstrata, visto que a representação figurativa é proibida no Islão.
Do Antigo Egito conhecem-se, entre outros, muitos Livros dos Mortos iluminados datados do Império Novo (cerca de 1550 – 1080 a. C.), tendo também países islâmicos como a Pérsia, a Arábia e a Turquia produzido obras de grande importância, como o livro de reis, Shah-nameh (Pérsia, entre 1522 e 1530) e As Viagens Fantásticas de Maomé pelo Céu e pelo Inferno (Pérsia, 1436).
Em Bizâncio, após o final das crises iconoclastas (século IX), foi abundante a produção de manuscritos iluminados, entre os quais se destacam o Saltério de Paris (cerca de 975) e o Rolo de Josué (913-950). Da época carolíngia, são famosos os Evangelhos da Câmara do Tesouro (século IX), produzidos ou na escola de Reims ou na do palácio de Aquisgrão e que contêm uma iluminura dos quatro evangelistas de inspiração clássica. Algumas obras de destaque, entre muitas outras, são: o Vergilius Vaticanus (cerca de 400), o Codex Áureo de Canterbury (século VIII), o Livro de Kells (século IX), a Bíblia de Winchester (entre 1160 e 1175), a Bíblia dos Cruzados ou de São Luís (cerca de 1250), o Códice Bórgia (século XIII), As muito ricas horas do duque de Berry (século XV), A pluma negra (século XV), a Cosmografia de Ptolomeu (1472) e a Genealogia do Infante D. Fernando de Portugal (1530-1534).
A partir do século XII, no Ocidente, os mosteiros foram deixando de ser os principais produtores de manuscritos iluminados, criando-se oficinas e surgindo produtores individuais. Os que se especializaram em iluminuras passaram a chamar-se miniaturistas, e não tinham por hábito assinar as suas obras.
O formato inicial destes manuscritos era em rolo, tal como se usava durante a Antiguidade, mas a partir do século IV difundiu-se o uso do códice. O rolo tinha a vantagem de, durante os ofícios da religião católica, poder ser desenrolado e enquanto o sacerdote lia os fiéis viam as imagens que ilustravam os textos. Esta vantagem é extremamente significativa porque, além das pessoas de formação religiosa, eram muito raras aquelas que sabiam ler. Contudo, o formato em códice proporcionou aos iluminadores mais liberdade e maior espaço para trabalho e um suporte plano que preservava a pintura, que antes se partia ao enrolar e desenrolar os rolos. As pinturas eram executadas não só em manuscritos de materiais como o papiro, o pergaminho ou o papel como nas encadernações e caixas para guardar livros.
Os tipos de manuscritos iluminados na Idade Média iam desde os de carácter religioso (saltérios, evangeliários, missais e sacramentais, livros de horas, a Bíblia e comentários à mesma, temporais, graduais e antifonais, breviários e livros do Apocalipse) aos laicos, não só tratados sobre diversos âmbitos do saber como obras que descreviam viagens, faziam narrações, contavam histórias e versavam sobre História.
Como referenciar: Manuscritos Iluminados in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-09-23 07:28:34]. Disponível na Internet: