Margem Norte

Publicada inicialmente em 1961, a edição de 1984 corresponde à edição definitiva deste romance. A apresentação da narrativa, na contracapa da obra, da autoria de Fernanda Damas Cabral, inscreve o romance no encontro da criação artística com a "função de agir sobre a nossa consciência social", no duplo plano dialeticamente indissociável do "percurso progressivo e evolutivo da personagem/herói e os acontecimentos que vieram a determinar aquele mesmo percurso". Narrativa autodiegética, corresponde a um romance de iniciação e de aprendizagem ao longo do qual o narrador ordenando as suas recordações, reconstituindo a crónica do bairro onde cresceu, para constatar que consumiu a "juventude sem realizar o gesto que justificasse a [...] passagem pelo mundo dos homens", o regresso ao passado constituindo a condição indispensável para operar a libertação de um mundo abjeto ("Tenho de continuar, para minha completa libertação, a analisar-me até aos desvãos mais difusos e recuados da consciência, ir ao fundo de mim próprio e pôr ao sol as vilezas que pratiquei - ou que não cheguei sequer a praticar - para que sinta repugnância por esse indivíduo que já não sou eu."). A conclusão do romance, quando o protagonista, ao participar numa manifestação, encontra o sentido da sua existência, resistindo até ao fim, reata com o início do romance explicando o porquê da alegria recebida pela dor física, quando nasce de novo, depois de se ter mantido "em estado de crisálida, vivendo, amando, e de olhos fechados para o mundo".
Como referenciar: Margem Norte in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2021. [consult. 2021-03-01 04:30:55]. Disponível na Internet: