Maria Gabriela Llansol

Escritora portuguesa, de ascendência catalã pelo lado materno, Maria Gabriela Llansol Nunes da Cunha Rodrigues nasceu a 24 de novembro de 1931, em Lisboa, e morreu a 3 de março de 2008, em Sintra.

Formou-se em Direito em 1955 e concluiu o curso de Ciências Pedagógicas em 1957. Viveu desde 1965 na Bélgica, onde desenvolveu uma experiência pedagógica inovadora, evocada nos recentes Apontamentos Sobre a Escola da Rua de Namur, que acompanham a reedição de O Livro das Comunidades.

Tendo regressado a Portugal nos anos 80 do século XX, a sua obra é reconhecidamente uma das mais originais e inquietantes da ficção contemporânea portuguesa, tendo sido distinguida com o Prémio D. Dinis, em 1985, para Um Falcão no Punho; com o Prémio Inasset, em 1986, para Contos do Mal Errante; com o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários e o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB, em 1991, para Um Beijo Dado Mais Tarde; e um segundo Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB, em 2007, desta feita por Amigo e amiga: curso de silêncio de 2004.

Estreou-se com a publicação de Os Pregos na Erva, em 1962 (a que se seguiria Depois de Os Pregos na Erva, em 1972), obra que, embora ainda não muito significativa relativamente à evolução posterior da sua escrita, foi recebida com perplexidade, indiferença e até reprovação, por uma crítica que, no início dos anos 60 e salvo algumas exceções, ainda não estava preparada para compreender a novidade ficcional trazida por uma novelística nascida da intenção de "provocar no leitor um desejo de mais-real", de "mostrar fulgurâncias-de-Belo tais que o leitor é levado a com-partilhar o real que se desvenda no texto, mas sem intriga, sem apoio de identificação, sem ficção, mas sem figuras (cf. JOAQUIM, Augusto - "O Limite Fluido", posfácio a Os Pregos na Erva, 2.ª edição, Lisboa, Rolim, 1987).

A partir de O Livro das Comunidades, primeiro volume da trilogia "Geografia dos Rebeldes" (de que fazem parte ainda A Restante Vida e Na Casa de Julho e Agosto) e "primeiro 'capítulo' de todo um livro ininterrupto, que desde então vem escrevendo" (cf. EIRAS, Pedro - "Comunidades Gémeas", in JL, 23 de fevereiro de 2000), Maria Gabriela Llansol inaugura uma prática de escrita única, alicerçada na imposição de um protocolo de leitura decorrente da compreensão da arte como forma de conhecimento; da reflexão sobre uma cultura europeia "marcada pelos encontros de confrontação que não se deram - e podiam ter sido autênticos recomeços de novos ciclos de pensamento e de novas formas de viver" (cf. Um Falcão no Punho, Lisboa, Rolim, 1985, p. 105), da definição de uma conceção do livro como modalidade do ser, como espaço onde se vive "la vraie vie qui est absente" (Levinas, cit. ibi.).

"A escrita como busca de verdade" obriga, então, a um repensar das categorias da narratividade tendente a devolver ao leitor a pureza da língua e a fixar apenas os momentos de revelação da verdadeira vida, porque, segundo a autora, "Numa história, há (ou não há) um momento de desvendamento a que se chama Sublime. Normalmente breve. Como penso que um leitor treinado já conhece todos os enredos, quase só esse momento interessa à escrita. Esse momento, tornado longa sequência sustentadora da vibração explícita, é o nome de escrita. É a face escondida - mas que importa desvendar - das técnicas narrativas já tradicionais." (cf. Um Beijo Dado Mais Tarde, Lisboa, 1990, p. 48).

É assim que Maria Gabriela Llansol substitui o termo personagem pelo de "figuras", que, na realidade, não são necessariamente pessoas, mas módulos, contornos, delineamentos, podendo tanto identificar-se com uma pessoa histórica, como com uma frase, um animal, uma árvore, o que designa sincreticamente de "cenas fulgor"; compreende o espaço e o tempo como uma simultaneidade que permite, no espaço da escrita, o diálogo, num presente absoluto, entre figuras reais e irreais, ou provenientes de diferentes dimensões históricas; impõe uma desarticulação diegética e sintagmática pela qual o registo narrativo se aproxima tanto do registo poético como da forma musical (escrita que desenha vagas cautelosas de aproximação em torno do ponto atrativo de uma verdade inacessível, apenas vislumbrada em certos momentos de contemplação epifánica; desenvolvimento de uma arte textual (re)combinatória pela qual múltiplas vozes e textos se confundem numa só voz); ou promove a interpenetração de géneros, nomeadamente entre a ficção e o diário (fazendo avultar a indistinção entre escrita/leitura e existência), mas também a miscigenação entre lírica, narrativa, drama e texto filosófico no limiar de uma realidade dificilmente verbalizável, ao longo de um diálogo pelo qual todas as obras se entreiluminam no retomar da voz de algumas das suas figuras (Ana de Peñalosa, Prunus Triloba, Hölderling, Bach, Aossê).

Consciente de que constrói uma poética e uma filosofia do conhecimento radicalmente novas, acresce ainda aos traços enumerados uma auto-referencialidade na tentativa de ir continuamente precisando quer os contornos da sua estética quer as leis por que se rege "o mundo luzente, o mundo fulgurante, o mundo desconhecido, o mundo tenaz, o mundo que submete um só para todos, a longa distância" (cf. Um Falcão no Punho, Lisboa, Rolim, 1985, p. 71), entre as quais se destaca a abolição da rutura entre corpo e espírito ("o corpo, lugar que viaja", pode, assim, lançar raízes "em séculos e em lugares esquecidos"), com inerente possibilidade de ubiquidade e de suspensão do "continuum espaço-tempo" (Lisboaleipzig 1, Lisboa, Rolim, 1994, p. 144); a "não-hierarquização radical das formas vivas" enquanto "habitat mais adequado, por parte do ser-humano, ao exercício da sua arte de se tornar "forma-humana" (op. cit., p. 142); ou a primazia do afeto na centralidade do ser: "nisso empenhei o meu texto. Voltar a dar à forma-humana a afirmação positiva do corpo e fazer dele um corpo de afetos, de sensações, de impressões para que, seja qual for o seu destino - a glória ou o nada -, não se possa jamais esquecer desta terra.

E o texto pôde definir em que consiste a centralidade da forma-humana:

     no Amor, ser os sentidos (a sensualidade e os sentimentos) da Presença não humana; no Amor, ser a consciência das formas - animais e vegetais, a consciência da paisagem.
     Para a forma-humana, só esta terra existe." (Op. cit., p. 146.)

É talvez neste último aspeto, o da conjugação do amor com a função gnósica da escrita, que a aventura literária de Maria Gabriela Llansol mais se opõe a outras experiências, sobretudo poéticas, contemporâneas: o assumir do texto como lugar de combate por uma unidade ontológica e como testemunho de um contacto fulgurante com a existência não é novidade, o que há de inteiramente novo na sua escrita, entre outros aspetos, é o não aceitar que essa unidade seja impossível e, consequentemente, obviar todo o sofrimento imposto pela atitude paradoxal de permanecer numa demanda à partida frustrante e inacessível.

Escrita sem fronteiras (espaço, tempo, corpo), onde se desfazem todas as oposições, e para a qual só podemos encontrar um paralelo na aventura mística, para Maria Gabriela Llansol "Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros" (Um Falcão no Punho, Lisboa, Rolim, 1985, p. 57).
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