Maria Monforte

Conhecida na sociedade lisboeta como a "negreira" por ser filha de um açoriano que fez fortuna no comércio de escravos, Maria Monforte é uma personagem importante em Os Maias de Eça de Queirós, na medida em que do seu casamento e separação resulta a intriga principal que envolve os seus filhos Carlos da Maia e Maria Eduarda.
Mulher bela, que escandaliza a sociedade lisboeta com as suas "toilettes excessivas e teatrais", é a mulher fatal romântica que se casa com Pedro da Maia e que o abandona numa paixão fulminante pelo italiano Tancredo. Maria Monforte é uma "magnífica criatura" com "cabelos loiros, de um oiro fulvo" que "ondeavam de leve sobre a testa curta e clássica"; tem "os olhos maravilhosos" e "um perfil grave de estátua"; "a sua face, grave e pura como um mármore grego, aparecia realmente adorável, iluminada pelos olhos de um azul sombrio"; possui um "colo ebúrneo" e "tranças de oiro"; lembra "um ideal da Renascença, um modelo de Ticiano".
De acordo com Beatriz Berrini, em Portugal de Eça de Queirós, "Não há outra personagem feminina atuante, mesmo que secundariamente, como Maria Monforte. Maria rompe um casamento rico, nobre, que a fizera aceita na sociedade (salvo pelo avô), e parte para uma vida errante e imprevisível. Após a morte de Tancredo, arruinada, perseguirá aventuras cada vez mais mesquinhas, fúteis, embrutecedoras. O texto aprecia-a negativamente. Inclusive através do embevecimento tolo de um Alencar ou de um Ega. O primeiro diz a Carlos que a mãe "tinha literatura e da melhor"; frequentara ele devotadamente os seus salões, como o "seu cavaleiro e seu poeta". Ega, num momento de estroinice juvenil, dissera um dia a Carlos que lhe invejava a mãe, "uma inspirada, que por amor de um exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida!". Afonso, varão de outras idades, esse, chamá-la-á de prostituta."
Mulher dominadora, consegue, após o casamento, que aquelas que lhe chamavam "negreira", invejosas da sua beleza e dos seus vestidos, venham agora às receções no seu palacete de Arroios e se considerem suas amigas. E numa atitude de insurreição contra o pai de Pedro, que a excluía por ser filha de "negreiro", Maria Monforte rejeita a fortuna do marido e vinga-se, quer recusando o nome de Afonso para o filho e preferindo Carlos Eduardo, quer deixando o mesmo filho aos cuidados do pai e do avô.
Anos mais tarde, as notícias sobre a Monforte vêm de Paris, viúva e numa vida de marginalidade com altos e baixos, mas sempre recusando qualquer ajuda dos Maias.
Como referenciar: Maria Monforte in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-11-23 18:39:44]. Disponível na Internet: