Mário Dionísio

Poeta, crítico, pintor, romancista, licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, onde viria a desenvolver atividade docente. Mário Dionísio desempenhou um papel importante na teorização do Neorrealismo, movimento literário que, pelas décadas de 40-50, à luz do materialismo histórico, valorizou a dimensão ideológica e social do texto literário, enquanto instrumento de intervenção e de consciencialização. Precisando, em prefácios, artigos e ensaios, as definições, história e alcance do movimento neorrealista, defende uma aceção ampla e intrinsecamente estética do conceito de realismo nos anos 40. Analisando, por exemplo, em Conflito e Unidade da Arte Contemporânea, os grupos antagónicos em que se digladiava a arte contemporânea, o da arte abstrata e o da arte realista, vê que se apresentava aí um falso antagonismo, mais ideológico e sentimental do que artístico: na verdade não existiriam duas artes, mas apenas uma arte que, "vítima do nosso próprio conflito, se desmembra em aspetos parcelares, se degrada, se corrói quase até à destruição, se separa em duas partes incompletas, artificiais, insustentáveis, caricaturais, estéreis e perniciosas, quando chegam ao extremo da sua evolução" (Conflito e Unidade da Arte Contemporânea, Lisboa, 1958, pp. 30-33). Considera, assim, a criação estética realista como um "compromisso constante com a realidade sem esquecer o mundo íntimo", não sendo, como arguíam os seus opositores, alheia ao conhecimento do Homem na sua individualidade, às suas pulsões inconscientes, às conquistas formais do irrealismo, mas submetendo-a a uma atitude de solidariedade, de abnegação, de alta humanidade (REIS, Carlos - Textos Teóricos do Neorrealismo Português, Lisboa, 1981, pp. 62-66). É desta convicção de que na obra de arte "forma e conteúdo se não podem separar sem ficarem ambos a escorrer sangue" que chega a criticar a obra romanesca de Alves Redol, cuja falta de modernidade do estilo impede que os assuntos dos romances do autor de Gaibéus alcançassem o estatuto de obras de arte (ib., p. 179). No âmbito da tentativa de uma reforma cultural encetada pelos intelectuais neorrealistas, através de palestras e ações culturais realizadas em vários pontos do país, participou num esforço conjunto de aproximar a arte e o público, de que resultou, por exemplo, a obra A Paleta e o Mundo, constituída por uma série de lições sobre a arte moderna. Poeta e ficcionista empenhado, fiel ao "novo humanismo", atento à verdade do indivíduo, às suas dolorosas contradições, acolheu, na sua obra, o espírito de modernidade e as revoluções linguísticas e narrativas da arte contemporânea.
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