Mau Tempo no Canal

Considerada por David Mourão-Ferreira (in O Essencial sobre Vitorino Nemésio, p. 38) a "obra romanesca mais complexa, mais variada, mais densa e mais subtil em toda a nossa história literária", Mau Tempo no Canal surgiu de forma isolada no contexto literário português, merecendo a desconfiança ou indiferença das correntes estéticas em que se bifurcavam as tendências literárias portuguesas em meados dos anos 40, que não reconheceram a totalidade literária atingida pelo romance de Nemésio. Urdida por uma tessitura de símbolos e elementos alegóricos, assumida desde a escolha dos títulos, que condensam metaforicamente o conteúdo narrativo dos capítulos ("Uma Aranha e uma Teia", "Outra Aranha e outra Teia", "As Aranhas Fecharam as Teias"), até à funcionalidade simbólica dos espaços, como o canal, símbolo de separação entre o espaço de clausura da ilha e o espaço de liberdade no exterior (o continente, a Inglaterra), mas também símbolo das forças elementares, irracionais e caóticas, alheias ao cosmo tensa e paradoxalmente organizado que as personagens são compelidas a aceitar; concatenada por um ritmo narrativo, que, comparado a andamentos musicais (os "Noturnos", o "Epílogo (andante; poì allegro, non troppo")), doseia sabiamente indícios e retrospetivas, movimentos de retardamento ou precipitação catastrófica da intriga; conjugando registos estilísticos diversos; situada entre a modernidade e a tradição literária, a narrativa de Mau Tempo no Canal incorpora e ultrapassa coordenadas ficcionais neorrealistas (isenção do narrador, reprodução da linguagem oral, numa especial atenção à reconstituição das realidades sociais açorianas, etc.) e pressupostos estéticos presencistas como a importância atribuída ao estilo e ao trabalho literário da linguagem.
Temporalmente situada entre 1917 e 1944, a narrativa centra-se sobre Margarida, epicentro de relações amorosas desencontradas e frustradas (Álvaro de Bettencourt, João Garcia, Roberto, André), nenhuma delas capaz de lhe proporcionar a realização das suas opções existenciais, sistematicamente negadas pelas convenções sociais impostas pelo asfixiante ambiente moral burguês da sociedade açoriana das primeiras décadas do século XX ou mesmo determinadas por uma fatalidade que ordena as histórias de amores recalcados e de vidas amordaçadas ao longo das gerações das famílias Clark e Garcia. Para além da intriga de amor camiliana que separa, com base em ódios familiares, o par Margarida e João Garcia, avulta, ao longo da narrativa, a imagem angustiante das personagens que, incapazes de se revoltarem, se sentem manietadas por mãos anónimas que as obrigam a conformar-se com um espaço físico e social fechado e onde a fuga ou a transgressão são condenadas com a exclusão social (caso de Emília, de Margarida Terra...). Esmagada por um "Tempo triste, com um resto de mormaço nas pedras e fastio de morte nas almas." (p. 253), pela "sombra maciça do Canal" (p. 260), depois da morte do tio Roberto, última esperança de partida para um espaço sonhado, Margarida condena-se ao cárcere definitivo do casamento e a um "suicídio moral" (cf. FIGUEIREDO, Mónica do Nascimento - "O corpo, a casa e a cidade: uma outra paisagem em Mau Tempo no Canal", in Vitorino Nemésio. Vinte anos Depois, Colóquio Internacional, Ponta Delgada, 18-21 de fevereiro de 1998, Edições Cosmos, Ponta Delgada, 1998): "afinal continuava presa às suas relações de família como uma mosca tonta à teia de aranha irisada! A morte do tio Roberto, em vez de a libertar de tudo, tirando-lhe as últimas ilusões, não seria, pelo contrário, a sentença de morte do seu ser? o seu dobrar à vontade alheia e às garras de um destino sem piedade?" (p. 427)
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