megalitismo

O fenómeno conheceu uma distribuição geográfica transcontinental: ocupa toda uma vasta abrangência entre a fachada ocidental europeia (da Suécia a Portugal, até à Suíça), passando pelo Mediterrâneo, Crimeia (península no sul da Ucrânia), Médio Oriente e Irão, até à Índia, Tibete, Japão, Coreia e Indonésia, encontrando-se também no Norte de África, na Etiópia, nos Camarões e em Madagáscar.
Esta multiplicidade regional esconde ainda mais a sua origem histórica e geográfica, embora se possa já, a partir de processos de datação aproximada (carbono 14 ou a dendrocronologia, por exemplo), balizar cronologicamente, com alguma margem de erro, obviamente, este género de construção. A primazia quanto à origem geográfica é também difícil de estabelecer, tal como os objetivos ou carácter simbólico de tais estruturas em pedra: o megalitismo surge independentemente em muitos lugares e diferentes épocas, com variadas funções (incógnitas, na maior parte dos casos) em comunidades distintas.
O megalitismo nasce de um contexto histórico caracterizado pela sedentarização crescente do Homem, centrado na agricultura, cada vez com mais contactos entre as comunidades. A metalurgia do cobre, que aparece a partir do VII milénio a. C., a par de uma atividade económica e cultural cada vez mais notáveis, demonstra uma apetência artística intensa por parte das comunidades que a usavam, bem como uma organização social progressiva e uma atitude religiosa marcante. Para além do habitat, das construções e realizações quotidianas e de uso corrente, o Homem está mais habilitado e ousado quanto à edificação de conjuntos arquitetónicos representativos do seu desenvolvimento cultural e artístico, principalmente de índole espiritual. Surgem, um pouco por todo o lado, as construções megalíticas, de simbologia ou finalidade variadas.
No caso do megalitismo na Europa Ocidental, supôs-se durante muito tempo ser oriundo da bacia mediterrânica, tese difusionista (irradiação do megalitismo a partir de um lugar em várias direções, portanto, uma origem comum) derrubada pela datação científica de várias sepulturas megalíticas na Bretanha (França) e em Portugal, demonstrando-se assim uma idade anterior de quase dois milénios em relação às pirâmides do Egito. De facto, o megalitismo aparece na história da Humanidade talvez durante o V milénio a. C., porventura a data mais credível atualmente, sendo os conjuntos arquitetónicos mais antigos, talvez, os da Europa Ocidental e África Central. Esta antiga teoria difusionista conduziu muitas pessoas a acreditarem numa religião megalítica que se teria expandido na Europa e África a partir do Mediterrâneo, por obra de "missionários" desses cultos...
São vários os tipos de construções megalíticas conhecidos na Europa, onde o fenómeno adquire uma expressão mais notória. A Bretanha e outras regiões francesas (com menor densidade do que aquela), as Ilhas Britânicas, bem como Portugal e Espanha, assumem-se como os principais "santuários" megalíticos europeus e até mundiais, dada a variedade e quantidade de construções.
A forma megalítica mais simples são os menires ou peulven, monólitos (pedras isoladas) verticais, para muitos ligados à fertilidade ou à guarda de sepultura, como na Índia, também, mas mais recentes. Podem aparecer isolados (o Men er Hroec'h, em Locmariaquer, Bretanha), agrupados em alinhamentos paralelos (Carnac, Bretanha) ou em círculos (cromeleques, do bretão crum, curva, lech, pedra), como em Stonehenge. Aparecem imensos dólmenes (do bretão dol, deitada, men, pedra) ou antas, grandes pedras, de formas poligonais, assentes sob outras pedras (menires), como uma "mesa" (como, por exemplo, a Mesa dos Mercadores, em Locmariaquer, França), por vezes formando câmaras funerárias (existem cerca de 4458 só em França). Podem ter uma câmara simples (poligonal), com corredor ou em áleas cobertas (um corredor somente de pedras, às vezes dividido em salas por lages). Ocorrem muitos monumentos deste tipo por toda a Europa Ocidental, nomeadamente na Bretanha, Irlanda (New Grange) e Portugal (no Alto Alentejo, principalmente). Aparecem também cistas - conjunto de pedras (lages ou seixos) de espessura limitada, formando como que um túmulo, individual ou coletivo, com cerca de 1 metro de altura.
Em Portugal, como na França, Inglaterra ou Irlanda, surgem associadas a estes túmulos peças arqueológicas datadas das primeiras fases do Neolítico, entre as quais se destacam machados polidos. Muitos estudiosos conotam-lhe uma simbologia religiosa para além do seu carácter funerário, coletivo ou individual. Muitos dólmenes justapostos formam áleas cobertas, comuns na Bretanha; quando cobertos de terra ou pedras, denominam-se tumulus, frequentes naquela região francesa (Gav'rinis ou Locmariaquer, no Morbihan, com representações em forma de gravura no seu interior). Aparecem também dólmenes e menires no Magrebe (Norte de África), de datação posterior (I milénio a. C.) aos da Bretanha, por exemplo.
Nas ilhas mediterrânicas (Baleares, Malta, Córsega, Sardenha), a densidade de ocorrência de megalitismo é também menor, sob a forma de "templos" (em Malta, por exemplo) ou construções funerárias designadas nuraghi, torri e talayots, entre outros, de acordo com a ilha em que se encontram. A Bretanha bate, todavia, todos os recordes de difusão megalítica: mais de 1000 sepulturas de vários tipos, cerca de 800 menires isolados, perto de 50 alinhamentos (só o de Carnac, no Morbihan, conta cerca de 2934 pedras). A maior parte dos monumentos megalíticos é edificada no solo, embora ocorra por vezes em aberturas, parcial ou totalmente, na rocha. Neste último tipo, podemos encontrar túmulos em corredor, câmaras únicas ou grutas artificiais, tipo tholoi de Creta. Os tholoi conhecem em Los Millares (exemplar fortificado em Almeria, Espanha) um dos seus expoentes.
O megalitismo - no caso europeu - atinge maior amplitude nos III e II milénios a. C., quando a organização social e a economia apresentam mais progressos nas comunidades do Velho Continente. É a época de Stonehenge, mesmo até dos aparelhos ciclópicos (construções em pedra de grandes dimensões) em Micenas, na Grécia. O trabalho colossal para a sua construção comprova todos esses progressos. Nos últimos séculos do II milénio, a instabilidade aumenta nos povos europeus, com movimentos constantes (guerras, migrações), aparecendo os Urnfield (campos de urnas, rasos, contendo vasos com corpos incinerados) a partir do Danúbio, substituindo os túmulos e outras construções funerárias ou religiosas megalíticas. Esta "civilização" dos campos de urnas aparece já mais conotada com o mundo céltico, originário do Alto Danúbio também, o que contraria uma série de teorias relacionando o megalitismo com os Celtas, implantados especialmente na fachada atlântica europeia. De facto, este povo terá aproveitado os monumentos megalíticos para ritualizações ou atividades funerárias, mas não se lhe terá ficado a dever a sua edificação.
Mais do que uma função funerária, o megalitismo aponta para a existência de um valor simbólico ou até monumental ligado à sua origem e edificação, ainda que estas tenham acontecido em épocas, regiões e comunidades distintas, aparentemente independentes. O modo de utilização e significação evoluiu, porém, ao longo dos tempos, provavelmente ganhando até uma significação religiosa, visível numa arte particular (gravuras, esculturas...) mais figurativa e estilizada (como nas estátuas-menires). Todavia, muito há por desvendar em relação ao megalitismo, envolto ainda em mistérios, lendas e múltiplas interpretações.
Como referenciar: Porto Editora – megalitismo na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2021-09-22 15:30:40]. Disponível em