melancolia

Derivado do grego melas (negro) e kholé (bílis), para designar uma tristeza profunda, um estado depressivo grave. A depressão é considerada uma forma atenuada de melancolia.
Relaciona-se com casos de perda de objeto, seja em situações de morte como em casos de fim de relação de amor.
Com a teoria de Hipócrates, conhecemos os sintomas clínicos: desânimo, extinção do desejo e da fala, atração pela morte e sentimento de grande nostalgia. Está associada à bílis negra e, nestes casos, imita a terra, aumenta no outono e impera na maturidade. Mais tarde, associou-se a melancolia à doença de Saturno, deus na mitologia romana, mórbido e desesperado, identificado com Cronos da mitologia grega, que havia castrado o pai (Urano), antes de devorar os filhos. Assim, os melancólicos eram chamados de saturninos. Os traços mentais da melancolia, ou depressão profunda, são: um desânimo profundamente penoso, cessação de interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, inibição de toda a atividade, diminuição nos sentimentos de autoestima, traços estes que culminam numa expectativa delirante de punição. O deprimido apresenta um quadro de delírio e de inferioridade do qual fazem parte a insónia e a recusa em alimentar-se.
Para Freud, foi descrita em oposição ao luto, como sendo em casos dos sujeitos sentirem-se culpados pela morte ocorrida, negando-a e sentindo-se possuídos pelo morto ou pela doença que originou a morte. O ego identifica-se com o objeto perdido, a ponto de ele mesmo se perder no desespero infinito do nada irremediável.
Segundo Melanie Klein, na melancolia, o que estaria em causa seria uma problemática da perda do objeto e da posição depressiva, inscrita no âmago da realidade psíquica.
Existe uma impossibilidade permanente do sujeito fazer o luto do objeto perdido e sua reparação.
A melancolia enquadra-se numa linhagem estrutural psicótica e muito arcaica, ou seja, o ego sofreu frustrações muito precoces, ainda na fase oral. Um ego pré-organizado de forma psicótica prosseguirá a sua evolução no seio da linhagem psicótica, na qual se vai organizando progressivamente e definitivamente. Se o sujeito adoecer após um acontecimento penoso e cheio de sofrimento, interior ou exterior, só poderá eclodir uma psicose.
Na melancolia, tudo o que o sujeito considerava positivo no seu seio relacional, na sua vida, é agora negado, a ponto de chegar a negar-se a si mesmo como sujeito próprio.
Abraham, em 1912, comparou os mecanismos de defesa do luto aos da melancolia, pois em ambos os casos trata-se de uma perda de objeto. Contudo, no caso da melancolia, a hostilidade sentida e a raiva pela situação experimentada em relação ao objeto perdido é voltada contra o próprio sujeito. O objeto nestes casos torna-se ambivalente, tem partes boas e más, cheio de amor e cheio de ódio. O objeto perdido é incorporado no sujeito segundo Freud.
S. Rado, em 1928, expõe que o mecanismo melancólico é uma busca desesperada por amor, um esforço para evitar a punição parental e uma tensão ligada a uma frustração antiga.
Nas personalidades do tipo melancólico predominam as relações de tipo simbiótico. O sujeito repete a relação com a mãe em idades precoces, mas que foi sentida como abandonante. Assim, em casos de perda desse objeto, é sentida pelo sujeito como uma perda de uma parte de si mesmo e quase inultrapassável, uma vez que o objeto é visto como um prolongamento do próprio sujeito. Poderemos dizer que o que está em causa é o abandono afetivo na relação binária, repetida mais tarde.
Comporta uma pesada regressão oral-narcísica com introjeção ambivalente do objeto perdido, é a reação patológica de uma personalidade marcada pela extrema, ainda que inconsciente, dependência objetal.
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