mitologia celta

Abrange o infindável panteão das divindades célticas, presentes na religião dos povos celtas da Europa Ocidental, dos Alpes e mesmo da Galácia (atual Turquia, terra dos Gálatas). As expressões de culto e rituais, os ciclos da Natureza e a mediação dos druidas com os homens entram também nesta dimensão mitológica que só com o domínio romano se começou a diluir.

Os povos celtas prestavam culto a elementos da natureza e seus ciclos, como a Lua, o Sol, as florestas, o vento, a fertilidade, os rios, não tendo um deus chefe que reinasse sobre um panteão divino. Os ciclos naturais representavam o equilíbrio entre as forças contrárias (Céu e Terra, por exemplo), daí que para povos que viviam da agricultura fossem tão importantes. Veneravam também as fontes, cujas águas consideravam curativas de doenças para as quais não conheciam tratamento, e sítios sagrados.
Neste culto acendiam tochas nas nascentes, levavam ofertas de flores e alimentos e deitavam nas águas trajes em linho ou lã, mel, cera de abelhas e peles de ovelha. Quanto melhores fossem as ofertas, mais favoráveis seriam os deuses.
No entanto, o culto das árvores (particularmente do carvalho) era o mais difundido, sendo os sacerdotes desta devoção os druidas ("homens sábios dos carvalhos"). Os celtas admiravam e respeitavam o encanto da macieira, a força transmitida pelo carvalho, sob o qual se faziam a maior parte das celebrações e cuja madeira era a mais usada para fazer imagens de divindades, e em geral todas as demais árvores, de tal modo que não era permitida a entrada de pessoas de outras crenças nas florestas.

Os druidas eram os mediadores entre os homens e os deuses e detentores de uma sabedoria que não era acessível a mais ninguém. Conheciam o caminho para uma vida feliz depois da morte, sendo por isso tão venerados por um povo que acreditava que a alma não morria juntamente com o corpo (acreditavam que o outro mundo se situava no Oeste). Representavam as classes sacerdotais que existiam em todas as civilizações Indo-Europeias e tinham uma formação que durava vinte anos para aprenderem os rituais mágicos e sagrados, fazendo no fim juramentos de cumprimento das regras morais e da religião. Os druidas do continente iam muitas vezes para a Grã-Bretanha para receberem esta formação. Estudavam o calendário lunar, vital para a pastorícia e para as colheitas como se pode verificar no de Coligny, datado de I a. C.

Na Gália, em Lughnasa, havia todos os anos o "Concílio dos Galos", reunião que era presidida pelo druida mais respeitável e onde se tomavam decisões importantes sobre as tribos.
Associados aos druidas apareciam os profetas ou adivinhos chamados bardos (o geógrafo grego Estrabão chamou-lhes vates, que em celta significa "inspirados") que cantavam as façanhas dos heróis tribais.

Para agradar aos deuses, além de ofertas faziam igualmente sacrifícios humanos (apesar de muito raramente), sendo um povo que se destacava pela sua superstição excessiva (como se pode ver nas Aventuras de Astérix, o Gaulês de Uderzo e Goscinny, especialmente em O Adivinho).
Os povos celtas tinham uma imensidão de divindades, sendo uma das razões o facto de em cada lugar serem venerados deuses diferentes. Como os Celtas ocupavam uma extensa área que ia de Espanha até à Turquia, passando por França, Boémia, Hungria, norte de Itália, Suíça, os Balcãs, a Grã-Bretanha e a Irlanda pode ver-se a razão de haver tantos deuses. Podem demarcar-se três grupos de crenças, as dos Europeus, as da Cornualha e do país de Gales, e as da Irlanda (também denominadas Goidélicas ou Gaélicas), Ilha de Man e Escócia.

O facto de se estenderem por tantos pontos diferentes fez com que os deuses gregos, etruscos e romanos influenciassem os celtas. As mais importantes dessas influências foram a construção de templos e a forma humana que se começou a dar às divindades na Idade do Ferro, por volta dos séculos II ou I a. C., pois antes existiam apenas em conceito, na imaginação.
O cronista latino Lucano descreve as primeiras imagens como sendo toscas, curtidas pelas intempéries e pouco expressivas.
Júlio César referiu que os Celtas continentais gauleses se consideravam descendentes de um deus equivalente ao Deus Pater ("Deus Pai") romano e Lucano relatou a existência de uma tríade de deuses importantes: Esus, Taranis e Toutatis.

Os deuses celtas tinham uma densidade corporal três vezes superior à dos humanos, o que lhes dava uma força extraordinária.
Os Celtas, à semelhança de algumas tribos sul-americanas, acreditavam no grande poder que os nomes tinham e ocultavam-nos, sendo essa a razão da dificuldade em identificar certos deuses e haver bastantes confusões. Faziam todos os esforços para que os inimigos não conhecessem os nomes dos seus deuses e assim tivessem um grande poder sobre eles. As cabeças cortadas dos inimigos eram também cultuadas pelos guerreiros.

O Livro das Invasões ou Leabhar Gabhála e a História dos Sítios ou Dinnshenchas do século XII são compilações de obras dos séculos VI ou VII e de importância fundamental para conhecer a origem dos mitos celtas como o Ciclo de Ossia ou Feniano, referente a um herói chamado Finn mac Cumhal, o Ciclo do Ulster (também chamado Ciclo das Sagas do Ramo Vermelho ou Ultoniano), que contém as aventuras de Cu Chulainn e de Conall Cernach e que está principalmente relacionado com as lendas da disputa por causa do Touro castanho de Cuailnge (vd. Ailill), e o Ciclo dos Reis.
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