Monaquismo Ocidental

Monaquismo é um termo que deriva do verbo grego monadzein (viver em solidão), sendo um fenómeno comum a várias religiões, entre as quais a cristã. O termo monachos (aquele que vive só) nasce no século II, embora o monaquismo propriamente dito apenas surja como fenómeno concreto e histórico no século IV, na Ásia Menor, depois na Síria e logo no Egito. Primeiro como anacoretas (isolados) depois como cenobitas (em comunidade), estes homens solitários expandem-se paralelamente à difusão do cristianismo no mundo romano. Seguiam textos normativos escritos por monges celebrados por Sua Santidade, como S.to Antão ou S. Basílio, este particularmente importante para o monaquismo oriental ainda hoje vivente na Europa cristã de rito ortodoxo.
Esta forma de vida solitária e em ascese contínua, centrada na castidade, na pobreza e na oração, facilmente se enraizou no Ocidente europeu, então destroçado e dilacerado pelas invasões germânicas e pelo fim gradual da romanidade. Na Itália, por exemplo, surge um dos rebentos mais fortes do monaquismo ocidental, S.to Ambrósio de Milão, ainda hoje celebrado. Na Gália, aparece S. Martinho de Tours, mas será na Irlanda céltica que o monaquismo atingirá níveis de ascese, rudeza e singularidade apenas comparáveis às práticas dos monges de certas comunidades da Síria e do Egito. Na "Ilha Verde" surgem vários mosteiros no século VI, entre os quais o de Bangor no golfo de Belfast, o mais célebre, fundado por S. Comgall, em cerca de 588. Dois dos maiores monges da Alta Idade Média eram oriundos dali: S. Columbano e S. Galo (ou Gallen), responsáveis pela irradiação do monaquismo na Gália e Helvécia (atual Suíça), fundadores de abadias com formas de vida rigorosas e até de ascese radical.
Há, todavia, uma figura no monaquismo que assume, pela sua ação, inteligência e génio, a paternidade e exponência da vida monástica: S. Bento de Núrsia, fundador dos Beneditinos e verdadeiro regulador do mundo claustral. Foi, de facto, o primeiro a elaborar uma regra aplicável a todas as fundações monásticas, acabando com a confusão das criações de mosteiros de forma desordenada e caótica, sem disciplina e medida na vida comunitária. A sua Regra, sábia e comedida, era facilmente aplicável aos mais diversos lugares e suas contingências, assegurando igualmente a estabilidade e permanência dos monges no mosteiro. Para além da ascese e vida contemplativa - como no monaquismo oriental - o monaquismo beneditino ganha em originalidade e sucesso graças ao valor que confere ao trabalho manual. Daí que muitos discípulos de S. Columbano, na Gália, tenham aderido à Regra do patriarca do Ocidente, Bento, o que se refletiu na proteção real aos mosteiros e à expansão dos monges por toda a cristandade ocidental. Porém, esta corrente beneditina, apesar do vigor, conhecerá duas reformas na Idade Média: em 910, com Cluny, e em 1098, com Cister, os dois polos irradiadores do monaquismo medieval. A primeira era eminentemente litúrgica e rica, a segunda humilde e agrária. Ambas, porém, ajudaram a "construir" a Europa e a sua identidade.
Ao lado do monaquismo, também no Ocidente despontaram formas de vida eremítica: Camaldoli (1002), Vallombrosa (1039), a Cartuxa (1084)... De certo modo idênticos aos monges, também os cónegos regulares (em Portugal, denominavam-se de Crúzios, ou de S.ta Cruz), inspirados na chamada "regra" de S.to Agostinho, se implantaram com grande êxito na Europa, desempenhando um papel cultural enorme. Surgirão depois, no século XIII, as Ordens Mendicantes, não de monges mas de frades, como os franciscanos e os dominicanos, que marcarão o declínio da vida monástica no Ocidente europeu.
Mas convém referir a ação civilizadora do monaquismo ocidental. Com efeito, graças ao trabalho silencioso dos monges nos seus scriptoriae e nas bibliotecas, as obras-primas da Antiguidade clássica foram preservadas e traduzidas, chegando até hoje. Inúmeros pensadores medievais saíram do mundo monástico, entre os quais se destaca o Doutor Melífluo, S. Bernardo de Claraval. Inovaram e dinamizaram também nos domínios da arquitetura, da arte e da moral, para além de humanizarem a sociedade, transformando "desertos", florestas e pântanos em jardins e belos campos de cultivo. Novos métodos e uma organização eficiente do trabalho foram outras das prestações dos monges do Ocidente.
Sobreviveram a crises várias, à Reforma protestante, às Luzes e à Revolução Francesa, ao laicismo e ao republicanismo dos séculos XIX e XX, ao anticlericalismo e a outras vicissitudes, mantendo viva hoje em dia a chama dos seus quases dois mil anos de oração, meditação e trabalho contínuos.
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