montagem cinematográfica

O filme nasce no argumento, revela-se na realização e concretiza-se na montagem, daí a necessidade de uma colaboração estreita entre argumentista, realizador e montador, este último a pessoa que executa a montagem final. Mas, a verdade é que a montagem começa no argumento, quando o argumentista escreve as cenas, e continua na realização, dado que o realizador é o responsável pelo início e fim de cada cena, e tem de observar uma série de regras essenciais para que o montador, na sala de montagem, possa levar a cabo o seu trabalho. Ao contrário do que se possa pensar, os erros da filmagem dificilmente são compensados na montagem. Uma das regras básicas da filmagem, que se repercute na montagem, é o raccord, ou seja, a ligação entre duas cenas que permite que haja uma sequência aparentemente natural, fluida, de movimento e de tempo na narrativa. Por exemplo, se um ator sai do campo visual pela esquerda terá que entrar pela direita no campo seguinte, para que exista uma unidade espácio-temporal e não quebrar a ideia de continuidade do filme. Durante a filmagem cabe à anotadora verificar que não existem cortes, diferenças ou anacronismos na narrativa fílmica. Isto quer dizer que os objetos e as pessoas que participam na cena ou no filme têm de aparecer de forma coerente. Primeiro, porque as cenas raramente são filmadas por ordem cronológica, conforme aparecem no filme, e, em segundo lugar, porque, sendo o tempo do cinema diferente do tempo real, as modificações no espaço e no tempo têm de ser cuidadosamente verificadas. Na montagem são considerados os momentos e as cenas relevantes para a narrativa fílmica e tudo o que é supérfluo é retirado, criando uma dinâmica no filme mais ou menos intensa consoante estamos a falar de cinema tipicamente americano ou europeu. A montagem é a versão final do ponto de vista do autor do filme e contribui para a transmissão de um olhar muito particular sobre o Mundo, suscitando emoções e sentimentos, transmitindo problemáticas e conceitos. O autor do filme, em termos de decisões finais de montagem, nem sempre é o realizador mas pode ser o produtor, sobretudo quando falamos do cinema norte-americano. A expressão director's cut ou, na tradução literal, o corte do realizador quer dizer que aquela seria a versão da montagem final do realizador, o que nem sempre coincide com a versão final que é comercializada. Na história do cinema, o realizador americano David W. Griffith foi, no princípio do século XX, precursor da importância dada à montagem nos seus filmes, sendo o fator emocional mais importante do cinema americano e uma das características que o distinguia do cinema europeu. O realizador russo Sergei Eisenstein foi hábil em dissecar a forma como a montagem era utilizada no cinema americano e chegou à conclusão que a montagem era o fator mais específico e o responsável pelas características particulares do discurso cinematográfico. O cineasta soviético Lev Kulechov chegou ao ponto de afirmar que o momento criativo do cinema não estava na escrita do argumento ou na realização e filmagem das cenas mas sim na organização das cenas filmadas, ou seja, na montagem. Dziga Vertov e os demais futuristas russos e italianos defendiam que o argumento era um descendente do teatro e da literatura, ambas artes do passado, e que o cinema para se tornar independente das outras artes, como meio de expressão, tinha de se libertar do argumento e assumir-se como máquina, como cinematógrafo, como cinema documental. A arte estava na montagem. Dziga Vertov montava os famosos documentários de atualidades, os Kino-Pravda (1922-1925), a partir dos rolos de película enviados por uma extensa rede de operadores de câmara espalhados por todo o país. A máquina de filmar era para Vertov mais perfeita do que o olho humano, sem julgamentos ou preconceitos, e por isso chamou ao seu cinema "cine-olho", que, não recorrendo ao argumento, se "escrevia" na mesa de montagem. O realizador Alfred Hitchcock, pelo seu lado, conhecido por planificar ao máximo os seus filmes antes da filmagem, através de um guião de rodagem (ou storyboard) desenhado ao pormenor, dava pouca oportunidade aos produtores de alterarem os seus filmes na sala de montagem. O seu segredo era filmar cada plano de uma só perspetiva e com a duração específica para ser "colado" ao plano seguinte. Desta forma, fazia a montagem na máquina de filmar com tal perfeição que era impossível alterar o "olhar" do realizador.
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