Artigos de apoio

Morabeza
Na advertência que introduz a primeira edição, o autor compreende a escrita de temática cabo-verdiana como tentativa de dar a conhecer o que é a "terra mestiça", no que ela tem de mais íntimo e indescritível, e que não se confunde com a descrição da sua paisagem ou do modo de vida do seu povo, correspondendo antes à sugestão de uma série de traços reunidos sob a designação de "Morabeza", o "sentimento intrínseco do povo crioulo". Alertado o leitor "contra o vírus do exotismo" ou contra as visões deturpadoras do "turismo literário" (cf. PIRES, José Cardoso, prefácio à 2.a ed. de Morabeza, Lisboa, Ulisseia, s/d), as narrativas reunidas em Morabeza contam, sem casticismo, nem qualquer dimensão de atrativo etnográfico, histórias simples, centradas menos na intriga do que na reconstituição, com o auxílio frequente da omnisciência do narrador, da rede de pensamentos e de tensões que surdamente mina o comportamento e a fala das personagens, numa escrita direta mas sugestiva, cujo "talhe da frase", "humor" e "ternura agreste da prosa" provêm, em grande parte, segundo José Cardoso Pires, "de uma herança neorrealista (...) e também do contacto com os escritores de 45 a que Manuel Ferreira se encontrava, por tendência, associado" (id. ib.).
Como referenciar: Morabeza in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-05-26 14:09:51]. Disponível na Internet: