Mosteiro de Leça do Balio

O templo de Leça do Balio é o edifício que inicia a tipologia das igrejas fortificadas portuguesas, modelo este que passaria a ser largamente utilizado, mesmo em igrejas sem qualquer ligação às Ordens Militares, verdadeiro ciclo de «representação retórica da força» que se estenderá até aos alvores de Quinhentos.
Neste mesmo local, já existia desde o século X um humilde cenóbio duplex, que viria a ser doado entre 1122 e 1128 pela condessa D. Teresa à Ordem dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, tornando-se assim a primeira casa capitular dos freires hospitalários em território lusitano. A profunda reconstrução então iniciada não chegou a ser concluída, pois o mosteiro foi totalmente reedificado na segunda década do século XIV por iniciativa de frei Estêvão Vasques Pimentel, balio de Leça. O mosteiro foi extinto em 1834, entrando então em acelerada decadência, felizmente sustida com as importantes obras de restauro levadas a cabo pelos Monumentos Nacionais no início da década de 30 do século XX.
A igreja constitui um esplêndido exemplar do gótico nacional, que, apesar da aparência de fortaleza medieva, possui equilibradas proporções e fina execução. No seu interior conserva-se um notável conjunto de obras escultóricas, mas parte da sua celebridade deve-se ao facto de nela se ter celebrado o fatídico casamento de D. Fernando e D. Leonor Teles. Exteriormente, as suas paredes de granito são prolongadas por parapeitos assentes em cachorros e coroados por merlões de terminação piramidal, com exceção das empenas da nave e dos braços do transepto, o que muito contribui para reforçar o seu carácter militar.
Na frontaria de três corpos, o portal, de quatro arquivoltas quebradas assentes em colunelos com capitéis esculpidos, abre-se entre dois poderosos gigantes e é sobrepujado pelo raro balcão de defesa, igualmente merlado e assente em cachorrada, acima do qual se rasga a ampla e formosa rosácea de tipo radiante.
Nos flancos, por entre lisos contrafortes, observam-se frestões mainelados que se alongam significativamente nas paredes exteriores do transepto, que é denunciado exteriormente em termos volumétricos. No lado sul, existe ainda um portal de quatro arquivoltas quebradas apoiadas em colunelos capitelizados, e rematado por um gablete simples.
A cabeceira poligonal é reforçada por botaréus de tipo românico, cujo carácter robusto é atenuado pela elegância dos altos frestões que entre eles se rasgam, mainelados na abside e simples nos dois absidíolos.
Adossada ao ângulo sudoeste da fachada, levanta-se a possante torre de granito, de 27 m de altura, que bem poderia ser a menagem de um castelo. Tem coroamento de merlões do mesmo tipo, sete frestas no último piso, seteiras a vários níveis e mata-cães a meia altura e nos ângulos do eirado. A nova sacristia ficou instalada no seu piso térreo após a demolição da anterior, ocorrida por ocasião das grandes obras de restauro.
O interior é de três naves com quatro tramos e transepto inscrito, sendo aquelas marcadas por arcadas longitudinais de arcos quebrados - os que cortam o transepto são de maiores dimensões - suportados por quatro pares de pilares, com colunas embebidas e arestas chanfradas. Os capitéis destas, tais como os dos portais exteriores, apresentam uma variada decoração zoofitomórfica e antropomórfica de sabor românico, vendo-se num deles uma representação da parábola de Adão e Eva.
As três capelas da cabeceira possuem belas abóbadas de pedra polinervadas, nervuras essas que na capela-mor brotam de sugestivas colunas parietais aneladas, sendo os capitéis decorados com motivos historiados de inspiração bíblica.
Do notável conjunto de monumentos funerários, salienta-se, na capela-mor, o arcossólio com a arca tumular e estátua orante do balio frei Cristovão de Cernache, falecido em 1569; e, no absidíolo do lado do Evangelho, o túmulo do prior do Crato frei João Coelho, com estátua jacente de acentuada expressão naturalista, obra da autoria de Diogo Pires, o Moço. Na Capela do Ferro, situada no outro absidíolo, encontra-se a humilde campa rasa do fundador, falecido em 1336, por cima da qual se vê cravada na parede uma placa de bronze contendo o longo epitáfio.
Ao cinzel daquele mesmo artista se deve igualmente a belíssima pia batismal de ornamentação vegetalista que se conserva junto à entrada do templo, datada de 1513 e considerada por Lurdes Craveiro «um dos mais importantes trabalhos do escultor coimbrão».
A cobertura é de duas águas, em carvalho e castanho, e a iluminação interior completa-se com o clerestório de frestas maineladas e com a pequena rosácea sobre o arco da capela-mor.
Das restantes dependências monásticas, opinava em 1874 o Portugal Antigo e Moderno: «O edifício do mosteiro é de aparência irregular e mesquinha (pelas suas muitas reconstruções e acrescentos) e não condiz em nada com a vastidão e majestade do templo». A maior parte arruinou-se ou foi demolida durante as obras de restauro, merecendo apenas referência um lanço do claustro, composto por avantajados arcos de volta perfeita assentes em robustas colunas, que provavelmente terá feito parte do edifício românico.
Foi classificado Monumento Nacional por decreto de 16 de junho de 1910.
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