Mosteiro de Lorvão

Num profundo e verdejante vale, próximo da vila de Penacova, desenvolveu-se a rural povoação de Lorvão, dominada pelo seu imponente mosteiro cisterciense. De fundação muito antiga, este mosteiro será, provavelmente, do século VI, suposição baseada na existência de uma pedra visigótica em mármore negro e por o seu primeiro abade ter sido Lucêncio - posteriormente bispo de Conímbriga e que esteve presente nos concílios bracarenses de 561 e 572.
Escassas são as notícias deste insigne mosteiro no período compreendido entre a ocupação muçulmana e o século XIII, altura em que se procede à sua reforma. No entanto, sabe-se que os monges de Lorvão atingiram um notável grau de cultura, como o testemunham os livros copiados e iluminados medievais - Livro das Aves (1183) e Comentários do Apocalipse (1189).
D. Teresa, filha de D. Sancho I, irá proceder à reforma do mosteiro laurbanense em 1206, incorporando-o na Ordem de Cister e destinando-o ao acolhimento das monjas desta ordem mendicante. Na mesma altura, a sua irmã D. Sancha fundava em Coimbra o mosteiro feminino de Celas. Ambas encontram-se sepultadas na capela-mor de Lorvão, guardando-se os restos mortais das Santas Rainhas em túmulos de prata, obra realizada em 1715 pelo ourives portuense Manuel Carneiro da Silva. O Mosteiro de Lorvão foi governado por notáveis abadessas durante o seu longo período de existência, destacando-se no século XVI D. Catarina D'Eça e D. Teresa Luzia de Carvalho no século XVIII. Com as invasões francesas e, posteriormente, a extinção das Ordens religiosas de 1834, o mosteiro entra num processo de penosa decadência. Contudo, a imensa mole do Lorvão conserva, atualmente, as reformas arquitetónicas efetuadas nos séculos XVII-XVIII, nomeadamente a igreja, o seu coro e os dois claustros, o dormitório, a Livraria, o cartório e o hospício, esta última dependência ocupada pelo Hospital Psiquiátrico do Lorvão.
A estrutura da fachada do mosteiro é sóbria e ritmada por janelas simples distribuídas pelos seus diversos andares. Acede-se por uma escadaria ao portal nobre, de arco abatido e encimado por um nicho com a estátua de S. Bernardo. No exterior destaca-se o imenso zimbório poligonal, rematado por elegante cúpula-lanternim.
O seu interior é grandioso e harmonioso, construído entre 1748 e 1761 e revelando uma arquitetura própria do Barroco Joanino, com influencias da real obra de Mafra. Este espaço unitário revela obras artísticas de grande qualidade e é profusamente iluminado pelas aberturas da magnífica cúpula do cruzeiro. Os altares laterais e o altar-mor possuem decoração de talha barroca, destacando-se dois deles pela presença de pinturas representando S. Bento e S. Bernardo, obras datadas da segunda metade do século XVIII e da autoria do pintor Pascoal Parente.
Uma soberba grade de ferro forjado com aplicações de bronze dourado realiza a separação entre o coro baixo e a igreja, obra-prima do rocaille português. Sobre esta construiu-se um órgão neoclássico, obra de António Xavier Machado Cerveira e datada de 1795.
Para além de possuir a graciosa escultura pétrea do século XIV de Santa Maria do Lorvão, ou Senhora da Vida, o coro apresenta um dos melhores cadeirais portugueses. Formado por 102 cadeiras de espaldar alto em madeira de jacarandá preto brasileiro e nogueira, estas apresentam um notável e harmonioso trabalho de delicadas figuras sagradas e assimétricos motivos ornamentais rocaille - obra datável de cerca do ano de 1747.
A Sacristia contém algumas pinturas de Miguel Paiva, Agostinho Masucci e Pascoal Parente, enquanto a Sala do Capítulo foi convertida num pequeno museu, onde estão expostas algumas das maiores preciosidades do mosteiro, nomeadamente alfaias de culto no campo da ourivesaria, paramentaria e pintura.
Datado dos começos do século XVII, o Claustro principal é uma construção tardorrenascentista, harmoniosa e sóbria, dividida em dois andares. O piso térreo é formado por arcos de volta perfeita assentes em colunas dóricas, enquanto o piso superior, concluído apenas em 1780, apresenta uma balaustrada com colunata jónica sustentando um formoso alpendre. No centro da crasta, um frondoso jardim envolve uma fonte central com um obelisco. Nas galerias do piso inferior podem observar-se sepulcros dos séculos XV e XVI, para além de algumas capelas renascentistas.
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