Mundo Céltico

Na sua aceção estrita, o termo "céltico" refere-se ao grupo de línguas que atualmente sobrevivem apenas nas zonas Norte e Oeste das Ilhas britânicas e na Bretanha, na França. Contudo, em períodos anteriores, as línguas célticas encontravam-se distribuídas por Inglaterra, França, Península Ibérica, Alpes, Itália Setentrional, certas regiões balcânicas e Turquia Central (através dos Gálatas referidos nos textos bíblicos). As artes e costumes, bem como a religiosidade da maior parte deste povos, demonstram que, e apesar da divisão em diferentes grupos tribais, todos eles partilhavam uma herança cultural comum, globalmente designada por "céltica".
Os autores clássicos referem-se a comunidades celtas ocupando a maior parte da Europa temperada durante o I milénio a. C. Apesar dos celtas se terem estabelecido anteriormente na Europa Central como grupo étnico durante centenas de anos, senão milhares, vestígios normalmente associados com a emergência da cultura celta surgem só cerca do ano 800 a. C. no território Sul da Alemanha e no Este dos Alpes. O que conhecemos hoje em dia destas comunidades provém, sobretudo, dos vestígios arqueológicos das suas fortalezas, dos enterramentos e formas singulares da expressão artística.
Um dos elementos-chave no desenvolvimento da Europa temperada durante meados do I milénio a. C., foi a introdução da tecnologia do ferro. Entre os primeiros vestígios de uso do ferro encontrados a Norte dos Alpes, assinala-se o conjunto de espadas do cemitério de Hallstatt, na Áustria. A primeira parte da Idade do Ferro celta, localizada cronologicamente entre os séculos VIII e V a. C., recebeu a sua designação daquela estação arqueológica austríaca. Durante este período, ricos túmulos indicam a emergência de uma nova aristocracia e uma maior distinção e hierarquia social. Estas distinções tornaram-se progressivamente evidentes no século VI a. C., quando a Europa, a norte e a este dos Alpes, entrou em contacto direto com as recentemente formadas colónias gregas do Mediterrâneo ocidental. O corredor de Rhône-Saône tornou-se uma artéria fundamental para este intercâmbio e em Mont Lassois, no Este da França, foi desenvolvido um importante centro e fortaleza celtas assente nesse fenómeno. Grandes fortalezas localizadas em pontos altos e estratégicos foram igualmente localizadas no Sudoeste da Alemanha, destacando-se nestas Heuneburg, no Danúbio, e Hohenasperg. Estes sítios apresentam numerosas importações mediterrânicas, incluindo cerâmica e vasos de bronze para servir e beber vinho, um hábito que a "aristocracia" celta parece ter retirado dos gregos. Em Heuneburg encontra-se patente um outro tipo de influência grega: uma fortificação feita em tijolo cru sobre fundações calcárias, com torres retangulares em intervalos regulares, fechando um dos lados do local. O lucro e o poder de aquisição provenientes do contacto comercial ficam evidentes nos ricos locais de enterramento que rodeavam estas fortalezas de altitude: no caso da de Vix, veículos e cerâmica grega, bronze de origem etrusca, e inclusive, na mamoa de Hohmichele abaixo de Heuneburg, têxteis feitos em seda provavelmente proveniente da China. As grandes fortalezas de Hallstatt foram abandonadas no século V a. C. e o centro de riqueza e poder transferiu-se para norte, para a área de Hunsrück-Eifel, no Oeste da Alemanha. Esta modificação associa-se ao desenvolvimento progressivo do estilo artístico de "La Tène", que marca a segunda fase da Idade do Ferro europeia, que durou do século V a. C. até à conquista romana. Os enterramentos deste período contêm frequentemente armas e carros e enquanto se mantém uma tradição de importações mediterrânicas, parece surgir um decréscimo acentuado na riqueza, em particular depois do ano 400 a. C. Esta "idade negra" durou até cerca de 250 a. C. e coincide com o período das invasões celtas referidas pelos historiadores clássicos. Os Celtas saqueiam Roma, em 390 a. C., e Delfos, em 272 a. C.. Bandos de guerreiros Celtas conquistam igualmente territórios na Ásia Menor, nos Balcãs e norte da Itália.
Nos últimos três séculos antes de Cristo assistiu-se a uma mudança significativa na Europa céltica, com o aparecimento da moeda, com o desenvolvimento dos estados e com a fundação de um largo numero de sítios de habitat denominados oppida. As primeiras moedas celtas, do terceiro século antes de Cristo, baseavam-se em modelos de origem grega. Eram emitidas pelos estados celtas emergentes da Roménia até à Gália, sendo, provavelmente, usadas para pagamentos oficiais. Os oppida fortificados, que se desenvolveram em meados do século II a. C., eram defendidos por taludes de madeira em cofragem e alguns, como o de Manching, eram de proporções consideráveis. As escavações arqueológicas revelaram um número assinalável de habitações em madeira - casas, oficinas, armazéns, celeiros e residências de elites em áreas protegidas por paliçadas -, bem como vestígios de trabalho em bronze e ferro, tecelagem, cerâmica e produção de moeda. Em alguns aspetos os oppida assemelhavam-se às cidades tardias do período medieval europeu.
As importações mediterrânicas tornaram-se mais frequentes nos oppida e em outros centros da época mas agora assistia-se a uma dominância dos produtos romanos em detrimento dos gregos, sobretudo ânforas de vinho e utensílios de cozinha. O comércio romano antecedeu o eventual despertar imperial; nos meados do século I d. C., somente a Irlanda e o Norte da Escócia estavam fora dos limites do Império de Roma, mantendo a cultura celta intocada até aos inícios da Idade Média.
A sociedade celta era profundamente estratificada. No topo do triângulo social estava o rei, que dominava a aristocracia composta por diversos chefes de tipo regional. O rei, senhor da grande maioria do poder decisório, aconselhava-se junto dos seus chefes em assuntos que revestissem cariz militar e político e com os sacerdotes sobre os contextos religiosos das decisões e suas implicações. No estrato imediatamente inferior ao aristocrático encontramos os agricultores livres, que eram auxiliados por homens destituídos de terra e/ou simples escravos. Dentro de cada um dos patamares sociais cada elemento desempenhava o seu papel específico, mas sempre mantendo uma relação de obrigação e direito interna. Deste modo, a sociedade celta baseava a futura organização social feudal da Europa medieval. Ao rei cabia a missão de ser generoso e justo na paz e eficiente, decidido e bem sucedido na guerra.
Os locais de habitação típicos deste período são pontos altos ou de média altitude, cercados por uma ou mais linhas de muralha, num fenómeno que, no Noroeste da Península Ibérica, ficou conhecido por "castros". À medida que se iam expandindo, acrescentavam-se sucessivas linhas de defesa. A entrada típica destes locais era formada por um corredor murado e grandes portões. No interior desenvolviam-se os diferentes espaços funcionais, sendo os de habitação normalmente redondos, de madeira e telhado em colmo. Erguiam-se igualmente celeiros quadrados, também em madeira e montados em estacas, e grades de madeira para secagem de feno e forragens. Tampas de barro ocultavam celeiros e silos subterrâneos. Encontraram-se também fornos, onde o cereal era seco e torrado, bem como carroças para transporte de produtos agrícolas e estrume.
As manifestações artísticas celtas mais antigas remontam à primeira Idade de Ferro europeu, ao período de Hallstatt. Consistem essencialmente de cerâmicas com ornatos de tipo geométrico linear, num conjunto geral que evoluciona progressivamente durante o período de "La Tène", atingindo uma complexidade significativa, observável nos motivos de adorno patentes em espadas, lanças, elmos, escudos, braceletes e fíbulas, espirais, palmetas ou motivos de tipo em "trombeta", entre outros. A partir do século I a. C. o fenómeno artístico perde precisão face à pressão dominante romana e dos povos germânicos, conservando a sua identidade somente nas ilhas britânicas, situação que se altera com as invasões anglo-saxónicas.
A arte dos celtas é um reflexo da sua própria religiosidade. Este povo acreditava que os deuses podiam mudar a sua forma, adotando qualquer outra existente no mundo natural. Num caldeirão de bronze encontrado num assentamento celta dinamarquês, em Gundestrup, datado do século I a. C., representam-se deuses de tipo híbrido, semi-animais, semi-humanos, como é o caso de Cernunos, o deus com chifres, que usa um torque (ou Tryskele) no pescoço como símbolo do seu poder supremo. As imagens dos deuses e deusas eram colocadas em relicários, implantados em simples clareiras florestais ou em grandes templos de madeira (em carvalho) criados para esse fim. Em algumas zonas do mundo celta europeu foram, inclusive, abertos poços de significativa profundidade, numa tentativa de atingir o mundo subterrâneo.
Foram criadas estátuas de uma imponência substantiva, representando deuses dignos, com grandes olhos e bigodes pendentes, por vezes bicéfalos ou tricéfalos. Os celtas lançavam aos rios, lagos e pântanos belos escudos ornamentados, caldeirões e espadas, praticando, em alguns contextos, sacrifícios humanos. A lenda da espada do Rei Artur, que devia ser lançada às águas após a sua morte é, provavelmente, uma reminiscência da tradição celta. De importância significativa na sociedade celta é a figura do druida, a quem competia oferecer sacrifícios humanos e animais, bem como consultar os áugures, possuindo um conhecimento alargado da história tribal, dos rituais religiosos ortodoxos e das leis. O conhecimento druídico era transmitido de forma oral, demorando cerca de doze anos, período de formação do druída.
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