Mundo Grego das Trevas

O período que se desenvolve entre cerca de 1150 e 750 a. C., denominado por Alto Período Arcaico, é de grande importância para o conhecimento da história da Grécia, uma vez que nele se desenvolvem os quadros que caracterizarão essa sociedade até ao século IV a. C. Contudo, após a destruição dos palácios micénicos, a arquitetura pétrea é abandonada e a escrita deixa de ser usada. Neste contexto, os materiais desse período, sobretudo as cerâmicas, assumem um papel essencial, bem como as tradições míticas gregas e os textos poéticos principais, a Ilíada e a Odisseia, de Homero, Teogonia e Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo.
As lendas gregas relativas ao retorno dos Heráclidas, ou seja, os Dórios conduzidos pelos filhos de Heraclés, são confirmadas pelo registo arqueológico e linguístico entre os séculos XII e X a. C., provenientes da região do Danúbio. Tendo arrastado consigo os Ilírios, dos quais uma fação passou para a Itália, e detidos a Oriente pelos Traco-Frígios, eles próprios em movimento, os Dórios descem para sul. Uns seguiram uma rota ocidental, através do Epiro (Dodona) e da Acarnânia, atravessando pelo mar o Golfo de Corinto, em Naupata, instalando-se no Peloponeso, até Olímpia, onde, como em Dodona, reina o seu grande rei Zeus. Um outro grupo desloca-se para oriente, atravessando a Tessália, subdividindo-se uns pela Beócia, chegando ao Golfo de Corinto, outros pelo Euripo, seguindo a costa e desembarcando na Argólida, submergindo a região de Corinto e Mégara, pelo Eurotas, na direção de Esparta. Nestas complexas rotas, os dórios arrastam consigo muitos povos, misturando-se antes de estabelecerem uma base fixa, o que torna suspeita a sua pretensão de criar uma pureza racial, dificultando, de igual modo, o estudo das suas contribuições. Neste panorama, duas regiões mantêm-se à margem das perturbações, a Acádia, no centro do Peloponeso, e a Ática. Os centros micénicos são substituídos por outros, vizinhos, como Amicléia por Esparta, Micenas e Tirinta por Argos e Orcomeno por Tebas.
A chegada destas novas populações desencadeou, ou acelerou, a dispersão de uma parte dos aqueus, distinguindo neste ponto a tradição grega em várias correntes: os filhos de Orestes, descendentes de Agamenon, ganharam através do Egeu e recrutando homens na Beócia e na Tessália, a costa Norte da Ásia Menor, posteriormente denominada Eólida. Um pouco mais tarde, os descendentes do rei de Atenas, Codro, partiram por sua vez para a Ásia Menor, levando consigo os jónios de diversos grupos, da Acaia e da Ática. A migração jónica orientou-se sobretudo para a Eubeia, com Cálcis e Eritras, as Cíclades, Paros, Naxos, Delos - que foi seu centro religioso (Apolo) - e enfim, para a região central da costa da Ásia Menor, mais tarde Jónia, onde se fundaram as doze cidades da confederação jónica (unidas no cabo Nícale pelas festas de Poseidon) ou Panjónia: Mileto, Priene, Éfeso, Cólofon, Focéia, Samos, Quios e, posteriormente, Esmirna, retomada aos eólios, foram as principais. Finalmente, os próprios dórios seguiram o movimento, ocuparam Melos, Tera e Rodes, Creta (Gortina) e depois, na costa Sul da Ásia Menor, Cós, Cnido, Halicarnasso, onde a resistência dos Cários foi acentuada. Estas tradições são com frequência discutidas, mas o testemunho linguístico é formal, atestando-se três dialetos diferentes na Ásia Menor: o eólio, o jónico e o dórico. Sendo assim, estamos perante uma primeira colonização grega, de carácter sobretudo agrícola, efetuada por mar, e cujas cidades são independentes das suas metrópoles continentais.
O conhecimento que dispomos destes momentos históricos é bastante diminuto. Até aos séculos IX a VIII a. C., os aspetos civilizacionais permaneceram a um nível relativamente embrionário. Somente o reinício dos contactos comerciais no Mediterrâneo Oriental vão iniciar um renascimento baseado na Jónia.
Os poemas de Homero surgiram no final do período, no século VIII a. C., na Jónia, proporcionando-nos informações numerosas e valiosas, mas de datação difícil de determinar. Por um lado, sobreviveram nos poemas diversos traços aqueus e nomes dos heróis lendários, por outro, a vida quotidiana, os costumes, o sistema político e social, a religião, são diretamente influenciados pela situação existente no período de vida dos poetas, os séculos IX e VIII a. C. Pelo que nos é possível observar, as duas epopeias, Ilíada e Odisseia chegam-nos sob a forma de arranjos muito tardios, provavelmente redigidos na Ática, no século VI a. C. (tradição relativa ao papel de Pisístrato). Contudo, e apesar dos esforços dos analistas, a sua unidade mais profunda resiste às tentativas de esfacelamento. Numerosas lendas épicas, cantadas pela tradição dos Aedos da Ásia Menor, a partir do século IX a. C., foram, após um período de longa evolução, combinadas em redor de centros de interesse (a Ilíada corresponde à cólera de Aquiles, a Odisseia ao retorno de Ulisses), por um ou dois organizadores geniais: não se trata de uma obra primitiva, mas de um produto de organização. A data e origem são de igual modo controversas: o mais plausível, segundo critérios linguísticos, arqueológicos e de conveniência interna, é que a Ilíada seja anterior à Odisseia, organizada talvez entre 734 e 708 a. C., e que o poeta tenha sido tentado a desencorajar a expansão grega para Ocidente, refletido no papel trágico das "aventuras" de Ulisses na Sicília e Itália Meridional, em favor da opção da "colonização Oriental", organizada pelos Milésios.
A utilização dos poemas homéricos como base de trabalho histórico é pois limitada, apesar da existência de fontes múltiplas de "auxilio", como as tradições aqueias autênticas, os poemas fenícios de Ugarit e Sidon, por vezes mesopotâmicos, como no caso da gesta de Gilgamés, e narrativas de navegadores fenícios e gregos à volta do Mediterrâneo. Abandonando os nomes dos heróis, as descrições fantasiosas ou as recordações deformadas e alteradas do mundo micénico, podemos admitir como válidos aspetos diversos, tais como a monarquia limitada pela influência nobre, o fracionamento territorial, os aspetos dominantes e autárquicos da vida agrária, a notável qualidade da produção artesanal, a complexidade da religião evolucionada, com o panteão nórdico (Zeus), marítimo (Poseidon e Tétis), agrários e ctónicos (Apolo, Deméter e Perséfone), bem como a marca de tradições sacerdotais difundidas nos santuários em desenvolvimento.
Quando analisamos a problemática do quadro social deste período, deparam-se-nos diversos problemas. Um primeiro liga-se com o surgimento da cidade grega, a polis, elemento fortemente político, económico e religioso, tipicamente grego, constituída no século VII a. C., mas sobre a qual desconhecemos os processos intermédios. Os micénicos conheceram provavelmente a cidade, mas sobre a forma de palácio-cidadela, num conceito diferente do da polis. Os helenos, isto é, jónios e dórios, conheciam quadros sociais anteriores à sua migração, as "fratrias" e as "tribos". A primeira é uma forma mais antiga de agrupamento social que viverá mais tempo, presidindo aos grandes momentos da vida pública e familiar, como o casamento, a apresentação dos filhos, a admissão no exército, a atribuição dos direitos cívicos, sendo protegida pelos deuses, sobretudo Zeus, phatrios, patroos e hetaireios. A tribo, por seu lado, reúne diversas "fratrias" com um mesmo fundador e obedece ao mesmo phylobassileus (rei da tribo, ou phyle), reconhecendo cerimónias religiosas, justiça e organização militar comuns. As tribos estão na base do recrutamento primitivo dos magistrados, da assembleia e do exército. De uma forma geral, os jónios distribuíam-se em quatro tribos e os dórios em três.
Quanto ao genos, em latim gens, trata-se de um agrupamento mais restrito que une as famílias descendentes do mesmo ancestral e formando uma espécie de clã. Trata-se de uma forma social tardia, de criação artificial, nascida sobretudo do orgulho das famílias poderosas, sendo, na realidade, não uma causa, mas simplesmente o resultado do nascimento generalizado do regime aristocrático.
A monarquia provinha da época micénica, surgindo em Homero já bastante matizada, nunca sendo absoluta nas regiões gregas, pois o rei encontrava-se circundado de conselheiros, de uma gerusia, conselho de anciãos, e de uma assembleia popular constituída por guerreiros. Esta monarquia enfraquecia-se de forma evidente: na Grécia, por influência do poderio territorial e agrário dos chefes de genos; na Ásia Menor, por desenvolvimento comercial e pela grande burguesia decorrente; no resto dos espaços "gregos", por predominância militar dos ricos. As grandes famílias dominavam o conselho de anciãos, distribuíam a justiça segundo as leis não escritas (a Témis), baseada na solidariedade familiar, sendo, de igual modo, os únicos a conhecer os arcanos da religião. O rei era neste contexto um simples magistrado, com atribuições religiosas secundárias. Os que não pertencessem a um genos eram explorados, apesar do esforço por estes desenvolvido de criar confrarias religiosas de artesãos, as thiasas.
Este regime não se estabeleceu da mesma forma em todo o lado. Na Ásia Menor e nas cidades marítimas foi mais rápido, surgindo de modo mais lento na Ática, na Beócia, e ainda mais no Peloponeso, substituindo, em determinado momento do período clássico, a monarquia nas regiões mais periféricas e menos evoluídas, como a Tessália, o Epiro e a Macedónia. As urbes eram repartidas de modo diferente. Muito avançadas na Grécia (Ática e Beócia) e nas ilhas, exceto no Peloponeso, com cidades menos numerosas mas fortes, com Argos a norte, Corinto no istmo e Esparta no sul. Cada cidade, independente e autónoma, era um centro político, religioso e militar, defendida por muralhas e protegida pelos deuses. Era "dominada" por uma acrópole e explorava uma área rural, cultivada pelos detentores da terra, excluídos de todas as vantagens, mas solidários da cidade.
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