Mundo Islâmico em Rutura

Em finais do século X o poder imperial árabe do Islão ficou reduzido à Mesopotâmia e à Pérsia. O resto do império dividia-se em pequenos reinos fomentados pela própria estrutura que os Muçulmanos haviam criado com administrações locais autónomas. Assim se explica o aparecimento do emirado sassânida no Irão oriental, os emirados sírios e o poder da dinastia fatímida no Egito. A força da lei islâmica (chari'ia ) instaura-se e torna-se mais poderosa do que a força militar do império, instituindo-se poderes ligados aos valores religiosos e assistindo-se à disputa entre as diversas fações religiosas (xiitas, sunitas e carijitas). Sob o ponto de vista político, os Árabes são suplantados pelos novos invasores - Turcos, Berberes e Mongóis assumem o controlo do Islão, trazendo a renovação ao seu interior.
A ocidente surgem os Almorávidas, Berberes que dominam Marrocos e a Argélia ocidental, em 1082, atacam a dinastia fatímida xiita que governava o Egito, e partem à (re)conquista da Espanha (1086), onde Afonso VI, à frente dos exércitos da Reconquista Cristã, havia conseguido libertar Toledo. Rapidamente se dispersaram, sendo substituídos pelos Almóadas, que assumiam o Islão numa vertente mais puritana (rigorista). O seu líder, Abd el-Mumin, conseguiu unificar o território africano desde a Tripolitânia (na Líbia) até Marrocos. Chegou a Espanha em 1147, tomando Córdova e Granada, onde instituiu um califado hereditário.
A oriente encontravam-se os Turcos, tribos nómadas originárias do interior da Ásia que haviam iniciado a sua expansão em 552, sob o comando de Bumin. À medida que avançavam em direção a ocidente, foram absorvendo as culturas locais por onde passavam, iniciando uma miscigenação com o Islão por volta do século IX. A sua inserção na comunidade islâmica foi feita como mercenários contratados e como escravos (Mamelucos). Estes últimos constituíam a guarda pessoal dos califas abássidas, posição que lhes valeu cargos de chefia. Acabam por tomar Bagdade (1055), colocando os califas abássidas sob seu poder, nomeando sultão Toshul, que instaurou a dinastia turca dos Seljúcidas (descendente de Selçuk). O sultão passou a ser o detentor do verdadeiro poder político, ficando o califa limitado ao poder espiritual. Rapidamente instalaram um estado de características militares seguindo a hierarquia islâmica clássica, e se tornaram os defensores da ortodoxia sunita (defensores da sunna, "tradição"), lançando-se contra os Fatímidas do Egito e os Bizantinos (vencem o imperador Diógenes, em 1071, ocupando a Anatólia). Contrariamente às dinastias anteriores, os Seljúcidas adotam uma política de intolerância, perseguindo Cristãos e outros credos considerados como heréticos. O seu império estendia-se então desde o Turquestão, incluindo todo o Próximo Oriente, chegando quase a Constantinopla. Data desta dinastia a criação da madrassa, a escola jurídica sunita cujo mentor foi o vizir de origem persa Nizam al-Mulk (1018-1098). As vagas de povos turcos continuavam a afluir ao Médio Oriente vindas da Ásia Menor mesmo após o desaparecimento da dinastia seljúcida, formando pequenas dinastias que irão desenvolver uma civilização brilhante na região do planalto anatoliano (Turquia), onde se conservavam os conhecimentos da Antiguidade.
Paralelamente ao avanço islâmico, assistimos ao combate dos Cristãos do Ocidente contra o Islão, através das Cruzadas, cujo objetivo era expulsar os "infiéis" da Terra Santa (ou "Lugares Santos"). Com a ocupação das costas do Líbano e da Palestina, os Cristãos formaram os Estados Latinos do Oriente, bastião da cristandade na Região. A sua presença foi, no entanto, abalada pela força de Salah al-Din ibn Ayyub, conhecido por Saladino, muçulmano de origem curda que expulsou os Cristãos ocidentais de Jerusalém, em 1187. Este mesmo homem havia deposto o califado fatímida do Egito, fundando a dinastia dos Ajúbidas em 1171. Esta dinastia será destronada pelos Mamelucos, que desferem o golpe definitivo nos estados latinos em 1277, com a ocupação de S. João de Acre. Foram também os Mamelucos que travaram o avanço dos Mongóis para ocidente.
Os Mongóis, étnica, geográfica e culturalmente aparentados com os Turcos, invadiram o mundo muçulmano desferindo o golpe de misericórdia no império islâmico. Terras e cidades são devastadas, a agricultura é desorganizada, provocando o regresso ao nomadismo em alguns locais. A grande figura deste império foi Gengis Khan (c. 1155/67-1227) que conseguiu reunir as tribos mongóis sob a sua chefia, ameaçando a Europa, depois de passar pela Ásia Central, Irão, Afeganistão e pela Rússia meridional. Derrotam definitivamente os Seljúcidas e depõem o califado abássida, em 1258, ganhando o apoio dos Xiitas muçulmanos. Um dos filhos de Gengis Khann tornou-se soberano de Bagdade. Os Mongóis acabaram mesmo por se converter ao Islão. Aqueles que haviam esmagado o império muçulmano irão agora fomentar a sua implantação em novas regiões a partir do século XIV.
Durante este mesmo século irá emergir uma das tribos que se instalara na Anatólia, a dos Turcos Otomanos (filhos de Osmão). Também convertidos à religião muçulmana, levam o Islão aos Balcãs e conseguem concretizar um antigo sonho muçulmano, a conquista de Constantinopla (1453, de grande impacte negativo, em termos emocionais, no Oriente cristão). Em finais do século XV, o Islão havia convertido grande parte do Mediterrâneo e atingira a Índia. Contudo, este poder encontrava-se repartido por diversas tribos e fações islâmicas, mantendo um conflito aceso entre Sunitas e Xiitas. No ocidente, no entanto, o mundo islâmico não se conseguia afirmar. O seu poder cai francamente com a derrota de Navas de Tolosa (1212) e a redução progressiva do al-Andaluz ao reino de Granada. O golpe final é dado pelos Reis Católicos de Espanha (Fernando de Aragão e Isabel de Castela), em 1492, que impõem a conversão ao Cristianismo ou o exílio, enquanto a oriente a força muçulmana renascia no Império Otomano.
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