Neorrealismo

Movimento literário que, assentando num compromisso político-social, uniu, na década de 40, uma geração de que fizeram parte, entre outros, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Afonso Ribeiro, Joaquim Namorado, Mário Dionísio, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Mário Braga, Soeiro Pereira Gomes ou Carlos de Oliveira, e que tendo como contexto histórico-social uma crise económica, a implantação dos sistemas totalitários (inclusivamente o português), a guerra civil espanhola e o início da Segunda Guerra Mundial, encontrou como elemento aglutinador determinante para a definição dos seus objetivos, em publicações como Seara Nova, Sol Nascente ou O Diabo, a polémica com os intelectuais da revista Presença, fechados, segundo os neorrealistas, num egotismo e esteticismos estéreis. Formado no pensamento marxista, defendendo as conceções do materialismo dialético e rejeitando a conceção inócua do socialismo utópico de que fora imbuído o romance realista oitocentista, o neorrealismo colhe no romance norte-americano de Steinbeck, Caldwell ou Hemingway, e no romance brasileiro nordestino, os modelos para uma literatura de denúncia social e de intenção pedagógica, marcada pelo forte anseio de atingir uma transformação histórica que resultaria da consciencialização de um destinatário que deveria incluir proletariado e campesinato. Costuma datar-se como marcos da afirmação da estética neorrealista, respetivamente, nos domínios da poesia e da prosa, a edição, entre 1941 e 1944, do Novo Cancioneiro e a publicação de Gaibéus, por Alves Redol, em 1939. No domínio da ficção, romances como Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, Uma Casa na Duna, de Carlos de Oliveira, Cerromaior, de Manuel da Fonseca, Vagão J, de Vergílio Ferreira, ou Casa da Malta, de Fernando Namora, encontram um fio condutor em algumas características como "o primado da objetividade [...], tendência para a exteriorização consumada pelo privilégio de certos espaços normalmente de inserção rural (Ribatejo, Alentejo, Gândara), valorização de personagens de clara incidência socioeconómica, representação dinâmica de processos de transformação histórico-social", conjugados com "uma conceção de romance que acentuava não só a necessidade de verosimilhança, mas até o cunho documental de que deveria revestir-se" (cf. REIS, Carlos - Textos Teóricos do Neorrealismo Português, Lisboa, 1981, p. 30). Quanto à poesia neorrealista, identificada com as obras de autores como João José Cochofel, Joaquim Namorado, Carlos de Oliveira, Mário Dionísio ou Manuel da Fonseca, eivada muitas vezes do mesmo intuito de denúncia e de ação que preside à ficção, combinado com um otimismo que decorre da confiança nas possibilidades de transformação que a fraternidade humana pode alcançar - pressuposto que coincide com a noção de marxismo afetivo, com que Eduardo Lourenço (O Canto do Signo - Existência e Literatura, Lisboa, 1993, p. 288) define a postura desta geração - encontra a sua especificidade num sentido de imanência e num consciente equilíbrio precário entre a esfera da subjetividade e a esfera coletiva (cf. LOURENÇO, Eduardo - Sentido e Forma da Poesia Neorrealista, Lisboa, 1983), evoluindo, nas décadas seguintes, para uma cada vez maior permeabilidade à expressão das dolorosas contradições do ser humano, à sua verdade íntima, bem como às revoluções linguísticas e estilísticas da modernidade. No âmbito da teorização, o Neorrealismo conheceu, desde o seu início, uma intensa atividade teórica desenvolvida por intelectuais como Manuel de Campos Lima, Rodrigo Soares, Rui Feijó, Raul Gomes, Armando Martins, João Pedro de Andrade, Álvaro Cunhal, e por escritores como Mário Dionísio e Joaquim Namorado, em publicações como, além das já mencionadas, Vértice, Altitude, O Globo, Síntese, Pensamento e Cadernos da Juventude.

Esta geração, afirmada entre a guerra civil de Espanha e o fim da Segunda Guerra Mundial, distingue-se de uma segunda geração neorrealista, onde é comum situar autores como Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires ou Abelaira, situada, a nível internacional, no contexto da Guerra Fria, e a nível nacional, pelo reforço dos sistemas de repressão, pela guerra colonial e por um sentimento de encarceramento coletivo, pela contraposição entre uma assinalada predominância, na geração de 40, da euforia, da crença utópica na chegada inevitável de tempos de libertação e um sentimento generalizado de desencanto e angústia que "pouco se compadece com a crença em futuros utópicos" (cf. MARTINHO, Fernando J. B. - Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, Lisboa, 1996, p. 314). Esteticamente, haveria a considerar ao mesmo tempo, na periodização das duas gerações, a passagem de um período de "aguerrida batalha pelo conteúdo em literatura" (Alves Redol, cit. in TORRES, Alexandre Pinheiro - O Movimento Neorrealista Português na sua Primeira Fase, Lisboa, 1977, p. 17) a que era inerente uma batalha pela forma, no alicerçamento de uma literatura acessível e consonante com as grandes massas, a um momento em que, sem necessária divergência de princípios ideológicos, e num contexto literário dominado por tendências antirrealistas, se reveem princípios e técnicas narrativas, se questionam os limites de uma literatura empenhada, alargando ainda o seu conteúdo à reflexão existencial, revisão que implicou a abertura de temas e processos e que marcou, em alguns casos, uma inflexão na carreira de escritores como Vergílio Ferreira ou Fernando Namora.
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