Nga Mutúri

Da autoria de Alfredo Troni, jornalista e escritor angolano do século XIX, Nga Mutúri foi publicada em 1882. Pequena novela de cerca de trinta páginas, esta obra, indo ao encontro de um certo gosto da época, foi editada em folhetim, no jornal português Diário da Manhã, obedecendo ao seguinte calendário: edições de 16, 21 e 28 de junho e 1, 4 e 6 de julho. Neste mesmo ano, a sua publicação foi reproduzida no Jornal das Colónias, em Angola, nos números 327 a 333, entre 8 a 25 de julho.
Com o título temático de Nga Mutúri (mulher viúva) e tendo como personagem principal uma mulher (Sra. Andreza) que só após a viuvez assume o nome de Nga Mutúri e à volta da qual, minuciosa e pormenorizadamente, se vai enformar toda a narrativa, esta obra constituiu-se como um importante apontamento da sociedade angolana do século XIX, dos seus costumes e tradições. Para tal, ao lado da protagonista, surgem personagens secundárias e dezenas de figurantes, às vezes, apenas referenciados com um nome ou uma profissão, cuja função é a de ajudar à contextualização espacio-temporal e social.
Na verdade, Nga Ndreza, forma crioulizada de Senhora Andreza, foi entregue, de acordo com a "lei do quitúxi", como indemnização, na sequência de prejuízos causados por um familiar, a um comerciante do mato de quem se tornou a amante principal e com o qual foi viver para Luanda. Esta relação vai permitir a ascensão social da personagem que vai sofrer um processo de aculturação com a deslocação do espaço do mato para o espaço da cidade. Negra de cor clara, Nga Mutúri encontra neste tom da pele legitimidade para reivindicar a sua ascendência branca, hipocritamente consentida pelas suas hipócritas amigas brancas que a bajulam e a quem emprestava dinheiro, dada a desafogada situação financeira em que ficara com a morte do amante. Contudo, esta assimilação económica não correspondia a uma verdadeira aculturação. Incapaz de romper com as origens, com os costumes que acompanharam o seu crescimento, esta personagem configura uma vivência "dupla" assente, por um lado, em atitudes (emprestar dinheiro aos brancos, por exemplo) que lhe franqueiam os espaços socio-culturais do branco e, por outro, numa simbiose entre os cultos, rituais e código linguístico nativos e os ritos católicos e a língua portuguesa. De facto, se por vezes participava em ritos católicos, como por exemplo a missa, Nga Mutúri não conseguia libertar-se da prática fetichista. A descrição da sua relação afetiva, por exemplo, remete-nos sempre para a sua anterior condição de escrava e demonstra um conhecimento profundo dos costumes supersticiosos que assolavam a população feminina nativa: " (...) ora é um bocadinho de cola e gengibre dentro de um lenço dobrado em coração, ora umas laranjas muito boas do arimo do Dande, cana doce, ovos, enfim coisas que ela oferece com muita gravidade, tirando-as da quinda em que a Bebeca as trouxe (...)".
Embora mantendo este comportamento híbrido, a personagem, profundamente marcada por contrariedades afetivas, constrói à sua volta uma muralha que a isola do mundo que tão empenhadamente reivindicou como seu, assumindo um comportamento de dignidade e de independência.
Obra composta por sete capítulos, onde se notam algumas influências do realismo queirosiano, fundamentalmente no recurso à ironia, Nga Mutúri dá forma a um verdadeiro retrato da sociedade luandense, nomeadamente no que concerne ao seu modo de estruturação interna.
Como referenciar: Nga Mutúri in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-09-30 07:45:28]. Disponível na Internet: