Nicolau Berdiaev

Filósofo e místico, nasceu a 6 de março de 1874, em Kiev, e morreu a 23 de março de 1948, em Clamart, Paris. A sua família pertencia à aristocracia militar. Fez os seus estudos universitários em Filosofia, adere ao marxismo, numa passagem breve. Ainda estudante, é exilado no norte da Rússia devido às suas ideias sociais. Regressa a Kiev, muda-se depois para São Petersburgo e, de seguida, para Moscovo. É exilado novamente e permanecerá na Alemanha até se estabelecer em França, onde residirá até à data da sua morte.
A obra de Berdiaev demonstra a preocupação pela pneumatologia, o destino espiritual do homem. Defende uma filosofia da liberdade e do ato criador, entendendo que a liberdade é anterior ao ser. A única forma de experienciar a liberdade do espírito é viver o amor, a morte, o sofrimento e a angústia que preenchem a existência. É neste sentido que Berdiaev critica o conceito abstrato, que considera o resultado de uma alienação, e a conceção de Deus como um ser, o Deus da ontologia, que, segundo ele, é privado de vida; Deus não pode ser entendido como uma abstração, como um objeto. A relação com Deus não pode também ser concebida à maneira da relação do escravo com o senhor, pois Deus deu ao homem a liberdade.
O homem experimenta um sentimento de abandono e nostalgia, sente-se estrangeiro em relação ao mundo e simultaneamente sente-se separado do mundo superior, ao qual sabe pertencer. O homem é esse drama: sabe-se infinito, mas é obrigado a experimentar a finitude, através da imersão no tempo. Para Berdiaev não é apenas o homem que sofre com esta separação, o próprio Deus a sofre. Não há Deus sem o homem, do mesmo modo que não há homem sem Deus.
Aquilo que no homem é verdadeiramente humano é o divino nele. O objetivo máximo do homem é a divinização, é ultrapassar o estado de criatura. Para lá do Deus revelado, há a divindade, Deus-além-de-Deus, o mistério propriamente dito. Só quando o homem, entrando em si e indo além de si, chega ao mistério profundo é que é capaz da verdadeira liberdade, do verdadeiro ato criador, ato puro, pois ultrpassou o sentimento criatural de dualidade (criador-criatura). Quando o homem atinge este estado criador, influencia todo o cosmos, transfigurando-o e regenerando-o; é neste sentido que Berdiaev considera que a vinda de Cristo teve uma importância cósmica.
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